quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Dizem que é rosa...

O mês de outubro é rosa...o mês da dita prevenção do cancro da mama, mas sempre que eu vejo um laço rosa apetece-me estrangular o dito cujo. Um cancro não tem nada de rosa, pelo menos nada daquele rosa associado ao mundo das princesas e dos contos de fada. A quimioterapia, a mastectomia, a radioterapia, a imunoterapia e a hormonoterapia (tantas terapias neste corpinho) não são nada rosa...nem rosa claro, nem rosa choque.

Fico meia indignada quando vejo as campanhas relativas à prevenção, porque sei que nem sempre funciona assim na "vida real". Fico furiosa quando me dizem que os médicos de família não passam os exames, não valorizam sinais, não dão a devida atenção às queixas. Felizmente tenho aqui em Ílhavo uma médica de família fantástica, que ao sentir o meu peito duro ao toque na altura teve um pressentimento, porque sem caroço ninguém pensa que pode ser cancro. Mesmo noutras situações, tem sido uma verdadeira médica de família, ao contrário de outros tempos lá em Vale de Cambra.

Azedumes à parte, é tudo muito bonito, toda a gente fala em prevenção e orgulhosamente mostra o laço rosa. Mas e atitude? Ir ao médico, fazer os exames, praticar exercício e tentar levar uma vida mais saudável?

Sei que já influenciei algumas pessoas a estarem mais atentas, a fazerem os exames e a cuidarem melhor de si (até mesmo evitando escapadelas à cozinha antes de ir dormir, não é loirinha?), mas gostava de ver mais. Quero que que se cuidem, que peçam ecografias mamárias (a mamografia é outra coisa), que se informem se sentirem algo de estranho...sintam e conheçam o vosso corpo, porque ele dá sinal se algo estiver errado.

Não quero dar sermões a ninguém. Apenas gostava que sentissem o laço rosa de maneira diferente da minha.

Bjinho,
vera

Ok, admito. Estes laços rosa eu adorei...no casamento da princesa Sisse.


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Brincadeiras na cozinha

Desde que o cancro entrou na minha vida que a alimentação se tornou um ritual quase sagrado. Digo quase, porque em nada devemos ser exagerados ou extremistas. Perdemos o balanço se quisermos ser perfeitos demais.

Neste sábado fui ao Mcdonalds com a Rita e as vizinhas...era a ladies'night cá na rua! Tirando a tara pelo brinquedo do Happy Meal, a Rita só consegue comer os douradinhos e as batatas e às vezes a sopa. Não é, de todo, o melhor sítio para comermos. É melhor nem pensar no que ingerimos ali, até porque é raro fazê-lo e assim devia ser para toda a gente.

Cá por casa, tentamos comer o mais "saudável" possível agora, ou pelo menos eu tento fazê-lo e incutir esses valores na Rita. Já para o charmoso, começo a pensar se não será um caso perdido...ehehehe

Este fim de semana fizémos Nutella sem porcarias, como diz a Rita. Está forte, mais forte do que a "tradicional", mas na próxima diminuirei a quantidade de cacau. Depois um bolo vegetariano, sem produtos de origem animal. Não tenho nada contra ovos, nada mesmo, mas apeteceu-me variar um bocadinho. Finalizamos o domingo com uns cogumelos Shiitake que a minha prima me deu e que estavam maravilhosos apenas com azeite e alho na sertã.

Dizia-me uma das minhas companhias preferidas para o café depois de almoço que só nos conseguimos dedicar à cozinha enquanto não temos filhos em idade escolar com trabalhos de casa. Talvez seja assim, mas acima de tudo, acho que é preciso gostar.  Quer eu, quer o charmoso, gostamos de cozinhar, por isso não o vemos como uma obrigação, mais um prazer, uma forma de desanuviar.

Hoje andei "azeda" o dia todo, por isso o jantar foi mais "trabalhoso", quase em homenagem às eleições de ontem. A minha terapia de hoje foi preparar um coelho caseiro com legumes e cogumelos na púcara. O barro no forno dá-lhe um sabor diferente e os legumes cozinhados assim ficam ótimos. Acompanhei com arroz de açafrão e couves da minha horta.

Podia dissertar sobre as vantagens do açafrão, da couve galega, das carnes brancas...MAS não me apetece hoje.



Falei há uns dias acerca da Ana. Ela começou hoje o seu tratamento de quimioterapia e vai ser uma lutadora incansável. Quando somos fortes, não é a idade que determina a nossa capacidade de lutar. É a coragem que mostramos nestes momentos que nos faz acreditar que somos capazes. E tu vais ser capaz. Espero que esta fase menos boa sirva igualmente para unir a família, porque nestes momentos são eles a tua linha da frente na batalha. Um abraço para ti.

Fiquei muito feliz há minutos atrás. Uma simples mensagem de facebook da Rita, uma jovem que também apanhou um susto na vida e que ainda recupera dele. Estamos todos a torcer por ti. Que este teu desencontro com a vida seja apenas isso, um desencontro. Muita força!!

Beijinho
vera

sábado, 26 de setembro de 2015

20 meses

Dizia-me ontem o meu querido dr. Leal da Silva que está feliz por mim. Passaram 20 meses desde o início da quimioterapia e não há sinais de recidiva e eu estou "cada vez mais bonita", palavras dele!

A sinceridade sempre foi ponto assente na nossa relação médico-paciente. Eu tenho, e sempre tive, noção clara das probabilidades de recidiva e das estatísticas de sobrevivência pós cancro inflamatório. Não são fáceis de engolir, mas o sentimento é o de que é para estar do lado bom da coisa.

Como em tudo na vida, podemos ver o copo meio cheio ou meio vazio. E eu tenho visto tanta gente que só vê o vazio, que insiste no vazio e na falta de humanidade.

Ainda ontem falava com uma amiga, que por acaso faz anos hoje, acerca disto. Como deve ser bom ter apenas preocupações mundanas. Valorizem a saúde, os amigos, a família, os colegas de trabalho. Valorizem fazer contas para pagar casa, comida, creche....é sinal que não tem contas de farmácia e hospitais.

À Rita, desejo sinceramente que recuperes bem e depressa. Tens uma família à tua espera e muita gente a torcer por ti.

Sejam simplesmente humanos e vivam um dia de cada vez.

Beijinho e bom fim de semana
Vera

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O pouco tempo que a vida tem.

Não sabemos gerir o nosso tempo cá, no sentido amplo da palavra.

Acordamos todos os dias, trabalhamos horas a fio, tratamos dos filhos, do jantar e em seguida da cozinha. Dormimos e no dia seguinte repete-se o fado.

Tenho sentido esta rotina a acentuar-se, especialmente agora que os dias vão começar a encurtar.

Falta-me tempo para escrever, tempo para os meus amigos e família, tempo para brincar com a Rita, tempo para namorar...e tempo para mim, que também é importante.

Tempo, não voltes para trás, mas dá uma folgazinha de vez em quando para aproveitarmos a estadia por cá.

Bjinho

Vera

Ps: estou em "mau humor" pré-consulta:))

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A Ana

Dizem que devemos retribuir os gestos de carinho e amizade na mesma moeda, contribuindo para um suposto equilíbrio no universo.

Aqui há uns largos meses atrás, penso que em outubro de 2013, a minha amiga Ana Carina soube que eu estava sozinha na Cliria a fazer uma biópsia incisional (ainda me dói só de me lembra e desta consigo lembrar-me bem) e largou marido e filhas para vir ter comigo. Não me deixou conduzir, levou-me à farmácia e depois trouxe-me a casa. Teve essa preocupação e carinho comigo e nunca me esquecerei disso.

Hoje foi a minha vez. Não a ela, mas sim a uma outra Ana. Uma menina de 21 anos a quem o cancro bateu à porta. Coitado…nem sabe com quem se meteu. Bateu à porta, não há nada a fazer a não ser dar-lhe luta. O cancro já lhe tirou “peças” e vai tentar meter-se com o cabelo estiloso dela quando começar a quimioterapia, vai tentar provocar-lhe enjoos e cansaço. Vai tentar pô-la triste e com medo.

Tentar, Ana, ele vai tentar.
Mas eu duvido que consiga arrancar-te o sorriso dessa carinha laroca de uma menina de 21 anos. Duvido que consiga retirar-te o espírito rebelde e refilão próprio da idade. Duvido que te deixes ir abaixo. Duvido que a tua mãe e irmãos te deixem ir abaixo.

É para derrotar o bicho, e nesta luta somos muitos a teu lado.


Bjinho

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Comprometimento com a “coisa”

Aqui há uns dias, antes de ir para o Arrábida, publiquei uma foto do meu processo, o que, com os seus lindos separadores, deu azo a comentários engraçados. Porque não ser organizado no cancro, ou no pós-cancro?

Estou comprometida com ele, numa espécie de relação amor-ódio. É difícil amar as partes do nosso corpo que mutam e viram “bicho”, mas facilmente amamos um corpo que luta com tudo o que tem para não se deixar levar.

Este comprometimento levou-me a ter um portfolio organizado acerca do cancro, metodicamente organizado. Exames, biópsias, relatórios, informação base, etc.

E porquê?

Podem simplesmente pensar que estou doida (uma hipótese bastante forte)…ou talvez simplesmente seja a minha maneira de estar no controlo do processo. Enquanto eu o tiver assim, dominado no portefolio e na mente, estamos em paz.

Hoje, ao vasculhar papéis no escritório procurando a receita da Beksero (nova vacina da meningite) para a Rita, dei de caras com a minha “agenda cancro”. Pensavam que eu me ficava pelo portefolio? 

Havia ainda a agenda, à moda antiga…papelinho. E acreditem que não há semana sem marcações, apontamentos, notinhas…..ah vida triste das pessoas que gostam de controlar a sua própria vida!





Bacioni a tutti,

Vera


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Estou de volta :)

Ontem fui de férias. Hoje já é o 3º dia após o malfadado regresso. Para onde raio foram os 15 dias?

O Nuno não conseguiu ter "férias", portanto foram dias de mãe e filha.
Entre arrumações em casa, visita a familiares e amigos, algumas idas à praia e serra e mais arrumações e lá se foram as férias de agosto. Não é mau, este discurso não é em jeito de queixa. O meu agosto de 2014 foi bem pior, mas o de 2016 será bem melhor.

Smile :)


PS. Faz hoje 1 ano que terminei a radioterapia. Tirou-me forças e queimou-me, mnas aumentou as minhas hipóteses de andar por cá mais uns anitos e vos azucrinar com os meus posts.

O meu obrigado às meninas do Centro Quadrantes no Porto. Não me esqueço de vocês. Um dia destes passo aí, mas só de visita :)