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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Tensão q.b.

Uma ida ao cirurgião plástico é um momento de tensão.

Tensão q.b., entenda-se,  porque as preocupações não são estéticas no meu caso. Há uns quilos a mais, estupidamente concentrados em alguns sítios, mas convivo bem com eles. Esta tensão vai depois desvanecendo ao longo do dia e chega-se ao fim do dia com a sensação de ter ido ao Porto a pé.

Passados 3 anos voltei ao sítio onde senti mais dores na vida...e voltei com um sorriso nas trombas. É preciso ser parva e esquecer que houve momentos em que me apetecia bater em alguém!

Com o covid, fui adiando a consulta de seguimento, mas devemos começar o ano a limpar assuntos pendentes e esse era um deles.

Uns quistos derivados do "lipofilling" precisavam do olhar clínico. Assim que o tiveram, ficaram felizes por saber que não os vamos incomodar nem com aspirações nem com cirurgias. É mesmo para deixar o organismo tratar disso, com o tempo que precisam, com a calma que exigem e com a descontração de quem já olha para os quistos com ar de "Achas que me incomodas depois de tudo o que já vivemos?"

Keep it simple!

Beijinho.





quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Obrigada!

Tenho muito pelo que agradecer. 

Tenho muito a quem agradecer. 

Obrigada pelas dezenas de mensagens e manifestações de carinho por mais um aniversário! 

Agradeço de coração. Fazer anos não é mais do que completar  um ciclo, continuar a vencer as contrariedades, admitir as derrotas, saborear as vitórias e seguir em frente. A perspetiva é simples, como tudo devia ser. Simples como os cabelos brancos que vão surgindo!

O ano passou a correr. Uma entrada apenas no blog, num ano em que o COVID nos continuou a condicionar os movimentos e a escrita, pelos vistos. Tem sido um ano rico em leituras, em obras e na horta.

Escrever menos no blog significa igualmente um maior distanciamento do cancro, aquela coragem ousada de quem diz "já passou" ou "está quase", ainda que persista alguma dor e ainda me arrepie de cima a baixo sempre que o cheiro dos restaurantes H3 me chega ao nariz (nunca comam hambúrguer depois de quimioterapia).  Exames semestrais têm mantido o foco no futuro, o foco na esperança e na vontade de fazer os 80 anos, pelo menos. 

Ainda hoje comentava no café, com duas moças simpáticas, que as perspetivas de vida mudam após certas coisas na nossa vida. Não é só conversa. São as prioridades que se redefinem quando a linha fica torta debaixo dos pés.

Gostava que algumas pessoas conseguissem mudar perspetiva sem ter de sentir o tapete a fugir debaixo dos pés...talvez assim conseguíssemos ser mais amigos, mais tolerantes, mais solidários...na prática, mais pessoas!

Um abraço, cuidem-se e sempre alerta a sintomas. Prevenir não custa e remediar sai-nos sempre mais caro em todos os sentidos.

vera



quarta-feira, 7 de julho de 2021

Dias e meses...

Já me é difícil calcular mentalmente o número de dias em que estive ausente do blog. Não posso culpar a quimioterapia, porque muita gente não entende o conceito do chemo brain e olha para mim com aquele ar de condescendência, como quem diz "Olha a parva. Já terminou a quimio há 6 anos e ainda usa isso como desculpa!".

Usemos, pois, os meses....muito mais fáceis de contar. Desde outubro ausente da blogoesfera. Confinamentos, nova mudança de casa, malas, caixas, trabalho, projetos e projetinhos...alguma coisa tem de ficar para trás, e por norma sou eu...o exercício físico....os livros...e o blog, entre tantas outras coisas.

Aprendi a olhar para o que se não se pode fazer como pacífico e aceitável. Aprendi que o que não tem remédio, remediado está e assim não sofro (tanto) por não fazer tudo o que gostava de fazer. Aprendi que se deve valorizar os pequenos momentos no sofá, o andar sozinha na horta com a  companhia das abelhas (e toupeiras), o ficar sentada no carro com um livro enquanto a criança treina.

Coisas pequenas, claro. Coisas que podem parecer parvas a muita gente. Coisas que para muitos são luxos...mas daqueles luxos que todos podemos ter se assim o quisermos e se assim orientarmos a nossa vida.

Cada vez mais sinto que o maior luxo é mesmo termos saúde, ignorando o cliché. Hoje foi dia de exames de rotina, com a sempre simpática Dra. Isonda. Para a semana, há consulta de oncologia, por isso convém ver se este belo organismo está em bom estado para a revisão com o Dr. Leal. Estar no vestiário antes de exames é um alerta para tudo o que de bom há cá fora.  O cancro tirou-me a "leviandade" com que se fazia os exames médicos antes dele surgir na minha vida e duvido que me devolva essa sensação algum dia. 

Hoje também era o Research Summit na universidade e eu tive de andar em jejum até às 11 e tal...o que vale é que as máscaras disfarçam o mau humor e o meu ar esfomeado. Tive de dividir a ansiedade pelos exames e pelo evento...e achar o ponto de equilíbrio. 

Deixo-vos a imagem de um quadro que comprei recentemente e que traduz o estado de espírito desta jovem quarentona.


Beijinhos e façam exames de prevenção.
Não custa nada prevenir. Custa bem mais depois.

Vera 






terça-feira, 6 de outubro de 2020

O bendito outubro rosa.

Chegou o outubro rosa. 

Toda a gente pode falar de mamas, postar laços cor de rosa e fotos de mamas por todo o lado e não há condenação social. 

Nunca vi o outubro como rosa, nem gosto particularmente que se comemorem coisas que deviam estar enraizadas na nossa mente e nos nossos hábitos. Prevenir durante os 12 meses. O outubro é só rosa, nada mais.

Não há preferências, não há maneira de nos excluirmos da prevenção, só porque não temos ninguém na família com cancro. É uma ilusão tão grande, mas ainda paira na cabeça de muita gente. Depois chega o susto, porque achamos que só acontece aos outros.

Devemos ter medo q.b., mas aquele medo que nos faz ter atenção com os sinais, que nos faz ouvir o nosso corpo e nos faz seguir os protocolos de exames de rotina. Não o medo da vida...seja ela rosa, amarela ou às pintinhas.


Em 2014, peguei num texto que enumerava os fatores de risco para ter cancro de mama e analisei à luz da minha experiência. Já lá vão alguns anos, felizmente, mas copio abaixo o texto. Vale a pena recordar tanta coisa que não encaixava no "perfil".

Enjoy it :)

Vera

"Analisando os fatores e a minha situação em concreto:

  • Idade: a possibilidade de ter cancro da mama aumenta com o aumento da idade.
    Eu tinha 33 no momento de diagnóstico.

  • História pessoal de cancro da mama: uma mulher que já tenha tido cancro da mama (numa mama), tem maior risco de ter a doença na outra mama.
    Nops...

  • História familiar: o risco de uma mulher ter cancro da mama está aumentado se houver história familiar de cancro da mama.
    Apenas uma tia do meu pai teve e já não era jovem. Ainda cá está para contar a história dela.

  • Algumas alterações da mama: algumas mulheres apresentam células mamárias que parecem anormais.
    Fazia ecografias mamárias de 6 em 6 meses. Sempre tudo normal.
     
  • Alterações genéticas: alterações em certos genes (BRCA1, BRCA2, entre outros) aumentam o risco de cancro da mama.
    Fiz esta análise já durante o tratamento e deu negativo felizmente.

  • Primeira gravidez depois dos 31 anos.
    Nops...antes dos 30 e amamentei a Rita durante +- 1 ano.

  • História menstrual: mulheres que tiveram a primeira menstruação em idade precoce (antes dos 12 anos de idade), ou uma menopausa tardia (após os 55 anos) ou que nunca tiveram filhos.
    Fui normal neste aspeto, pelo menos na parte da primeira menstruação. A menopausa não deve ser tardia :(

  • Terapêutica hormonal de substituição: mulheres que tomam terapêutica hormonal para a menopausa, durante 5 ou mais anos após a menopausa.
    Ainda não lá tinha chegado, mas agora já faço hormonoterapia.

  • Raça: o cancro da mama ocorre com maior frequência em mulheres Caucasianas (brancas), comparativamente a mulheres Latinas, Asiáticas ou Afro-Americanas.
    Yep...I'm white.

  • Radioterapia na região peitoral: mulheres que tenham feito radioterapia na região peitoral, incluindo as mamas, antes dos 30 anos, apresentam um risco aumentado para cancro da mama.
    Fiz agora, mas para combater o bicho.

  • Densidade da mama: mulheres com idade mais avançada que apresentam, essencialmente, tecido denso (não gordo) numa mamografia (raio-X da mama), têm risco aumentado para cancro da mama.
    Sempre tive o tecido mamário muito denso, daí as ecografias periódicas que o meu ginecologista sempre me aconselhou.

  • Obesidade depois da menopausa: mulheres obesas, após a menopausa, apresentam um risco aumentado de desenvolver cancro da mama.
    Mais uma vez, ainda não tinha chegado lá, nem me deram a oportunidade de engordar :)

  • Inactividade física: mulheres que são fisicamente inactivas, durante a sua vida, parecem ter um risco aumentado para cancro da mama; estar fisicamente activa pode ajudar a diminuir este risco, através da prevenção do aumento de peso e da obesidade.
    É estúpido, mas eu e o meu charmoso tínhamos entrado para o ginásio poucos meses antes do diagnóstico. Não considero, no entanto, que estivesse fisicamente inativa, até porque com uma pestinha de 3 anos, seria difícil ser inativa cá em casa!

  • Bebidas alcoólicas: alguns estudos sugerem haver relação entre a maior ingestão de bebidas alcoólicas e o risco aumentado de ter cancro da mama.
    A minha boa disposição (quase sempre) não depende do álcool. Beber um copo de vinho ou uma cerveja de vez em quando chega-me. "

domingo, 22 de março de 2020

Ficar em casa!

Hoje é dia 22.

Na prática, não saio de casa desde dia 13 e, felizmente, já estava em tele-trabalho em casa desde dia 11.

Nestas circunstâncias, é preciso saber estar em casa, o que muitas vezes não é fácil, especialmente quando fizemos downsizing na casa e não temos espaço para co-habitar sem ameaçarmos alguém de porrada ou tropeçar em alguma coisa.

Tive um ano de aprendizagem nesta matéria em 2014. Com o cancro e respetivos tratamentos fofinhos, vi-me muitos dias fechada em casa e aprendi a lidar com os silêncios da casa, nesta caso na minha antiga casa. Ai as saudades da Vista Alegre e da minha horta :(

Sempre gostei de estar com pessoas e ver-me rodeada de amigos. No entanto, durante a quimioterapia, aprendi o quão satisfatório pode ser o silêncio e a solidão. Houve dias em que tive companhia, e da boa, mas muitos em que tive de aprender a viver dentro das paredes da casa e a saber respeitar esses limites.

Era-me dito para me resguardar de pessoas além do necessário, contacto só com a família mais próxima...qualquer constipação ou gripezinha num sistema imunitário debilitado podia dar azo a problemas. Ir ao supermercado só se me sentisse bem fisicamente e nas horas de menos gente...ir de máscara era aconselhável.

Confesso que andava com elas no carro e quando saía, pensava que se entrasse de máscara, ia ser alvo de olhares ainda mais piedosos do que aqueles que a careca e o olhar amarelecido me conferiam.

Entrava, procurava o que queria e saía a correr, quase sem tocar em nada, a fugir das pessoas nos corredores e meia paranóica com o contacto físico.  Neste momento, vejo tanta gente na televisão assim, de máscara na rua, nos transportes e nos locais de trabalho que ninguém daria pela minha máscara nem pela figurinha que devo ter feito algumas vezes.

Estar em casa por vontade própria é fácil, estar por necessidade e/ ou obrigação força-nos a outro mindset. Temos de interiorizar que este é um período da nossa vida que somos obrigados a viver, uma fase que vai passar e que novos dias virão, com a liberdade para ir à praia, dar um volta de bicicleta ou só estar com amigos num final de tarde.

Entretanto, vamos fazendo dentro das nossas paredes tudo o que nos é permitido, porque umas vezes é o cancro, outras vezes a depressão, agora o corona....há imensas coisas que nos podem prender a uma casa. É preciso esperar com calma, paciência e respeito pelo próximo.



Beijinho e fiquem em casa.

vera


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Dores de gente normal

Hoje ao mostrar o blog a uma pessoa, deparei-me com uma ausência prolongada....17 de dezembro foi o último post. E já aconteceu tanta coisa desde então :)

Andei distraída com umas dores de costas que conseguiram colocar a imaginação em altos voos. Uma pessoa normal ponderaria uma queda, mau jeito no desporto, efeito da idade, postura incorreta...está-se mesmo a ver?

Metástases ósseas...claro. No que mais haveria de pensar um sobrevivente oncológico?

É quase como se não tivéssemos direito a dores simples, dores de gente normal. Depois de alguns dias a evitar pensar nas dores, outros tantos a pensar que as inflamações demoram alguns dias a passar, outros em Madrid a tomar anti-inflamatórios na corrida pelos museus, eis que na consulta com o oncologista me queixo e ele, como sempre, ouviu, refletiu e opinou.

Não devendo descurar este tipo de dores minimamente constantes, há que investigar a causa, ou pelo menos, eliminar causas de dor.  Pensamento de oncologista = despistar metástases ósseas. É caso para dizer que o nosso pensamento não anda muito desencontrado.

Fiz uma cintilografia óssea de corpo inteiro na semana passada...aparentemente, no meu belo esqueleto nada indicia "malignidades" e o radiofármaco que me injetaram não foi atraído por nenhumas células, pelo que agora pode ser o que quiser....inflamação, postura, idade....whatever, desde que não seja cancro.


Uma consulta de osteopatia entretanto parece ter ajudado e, mais uma vez, acredito que aliar medicinas/ terapêuticas alternativas com as convencionais só nos trará vantagens. Se alguém me vir mal sentada, inclinada para algum dos lados....relembre-me por favor que fazer uma cintilografia é bem menos agradável do que sentar-se corretamente!!

Beijinhos,
Vera

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Números que gelam

Estatísticas...valem o que valem, mas conseguem gelar-nos uns momentos.

O medo vai sempre acompanhar-nos, saber lidar com o medo é que nos faz continuar a sorrir, a sair da cama, a trabalhar, a viver! Ter noção destas amargas estatísticas ajuda:)

Vejam a reportagem breve da Sic  - "Um terco dos doentes com cancro da mama acaba por voltar a ter a doenca na forma avançada"

Bjinho,
Vera


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Besta de cancro

Hoje uma sms fez-me recuar a 2013 quando descobri que tinha cancro...

Nunca fui de eufemismos. É cancro...não é o malzinho, a doença, o tumor maligno...chamem-no pelo nome. Consta que ele não gosta de afrontas...

Quando nos conseguimos colocar no lugar da pessoa que acabou de receber esse "presente", caímos de volta no mesmo momento, sentimos o aperto e a sensação de medo e do "porquê eu"...e milésimos de segundos depois, estamos a passar energia positiva, a cuidar de dar esperança e a disponibilizar-nos para ouvir, falar ou o que quer que precisem.

Não vale a pena procurar o porquê. Há quem diga que é o destino, o karma, o azar, a genética, entre outros pseudo-culpados.  Importa agora somente o quando e como o vamos atacar, para o ultrapassar. O resto fará parte da história, da nossa história

Bjinho
vera

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Os primeiros 5!

Não sou uma pessoa ambiciosa, não almejo cargos importantes no trabalho, não quero ser rica a ponto de não saber quanto dinheiro tenho e não quero ter carros xptos...'keep it simple', costuma ser o lema. O cancro poderá ter contribuído, em parte, para esta postura, mas acho que muito já era meu.

Esta semana, pequenas vitórias que me valeram uma taça!


5 anos após fim dos tratamentos-choque, 5 anos de medicação e de exames constantes, 5 anos de efeitos secundários muitas vezes camuflados pela minha postura e "bom ar".

 Não vou deixar a hormonoterapia, que no meu caso é recomendada por 10 anos. Vamos alterar. Vou deixar de tomar as benditas injeções Zoladex, vou deixar o Aromasin daqui a 1 mês, vou parar o ácido alendrónico em breve e voltar ao tamoxifeno por mais 5 anos. No fundo, a partir de agora, só o tamoxifeno, o cálcio e a vit D...

Deixar de sentir aquela agulha linda todos os meses não vai deixar saudades. Acho que vou sentir saudades das minhas queridas enfermeiras Andreia e Isabel, que ao longo destes 5 anos sofreram um bocadinho comigo e que foram vivendo comigo as pequenas vitórias e partilhando muito mais do que apenas aquele momento para a injeção no centro de saúde de Ílhavo.

O meu querido Dr. Leal ficou tão feliz quanto eu. 

São mudanças positivas na medicação, na esperança de sobrevida e na qualidade de vida.

Keep it simple.
Vera


terça-feira, 5 de março de 2019

Falar sobre cancro

Falar sobre cancro...pois!
Falo muito sobre o cancro, seja o meu ou outros. Conheço intimamente o meu e dou uns toques acerca de outros. Muita informação inútil neste cérebro!

Muitas vezes, no momento do diagnóstico, depois de passar aquele primeiro susto, precisamos de ouvir experiências, pessoas reais que saibam entender o medo e o pavor do desconhecido e da incerteza. Tenho falado com algumas pessoas, a maioria provavelmente não devo ter o prazer de conhecer pessoalmente pela distância que nos separa. Mas isso não significa que não seja criado um laço com essas pessoas. São laços virtuais, muitas vezes mais fortes que muito físicos.

Nesta minha aventura, conheço também casos mais próximos, que me fazem pensar na injustiça na distribuição dos cancros. Não sei quem a faz, mas devia repensar seriamente a sua estratégia!

Se com dois dedos de conversa e um chá conseguimos ajudar alguém, se os conseguimos ajudar a tranquilizar, sabe bem. Ficamos a pensar em como podemos ser úteis aos outros, como quando um dia alguém o foi para nós.

Não há nada que garanta que vai correr bem, nem ninguém o pode assegurar, eu muito menos. Mas quando sei que estão a ser tratados, ou vão ser tratados, pela equipa que me segue, fico simplesmente aliviada e feliz pelas pessoas. Os anjos da guarda podem ser partilhados, afinal de contas.

E sei que o Dr. Leal, a Dra. Teresa, a enfermeira Maria José e a Licínia de tudo farão para que te sintas sempre bem enquanto por lá andares, querida L.

Agora vamos a luta!

Bjinho
vera

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Rosnar e sorrir

Tenho andado cansada, demasiado abstraída para sentar e escrever, que tanta falta me faz. Aliado a isso, o meu "Airzinho" morreu há uns dias, daquelas mortes que não tem ressurreição possível.

Vá lá que foi nas mãos do Nuno...se fosse nas minhas, ainda hoje estava a ouvir as piadinhas. Sim, porque "eu" dou cabo das máquinas todas, cá em casa tem sido um "ver-se-te-avias" de cenas avariadas e, segundo consta, eu tenho quota parte nisso. Devo ter um dom...o que me vale é a minha capacidade de abstração (ou de ignorar mesmo).

A abstração e capacidade de ignorar, até um certo ponto, são muito importantes, porque existe tanta coisa, boa ou má, a acontecer à nossa volta, que nos consegue desestabilizar, retirar a paz e o equilíbrio que precisamos para viver, e não só sobreviver.

Vou rosnando, sorrindo e ladrando, por vezes, mas enquanto assim for, é bom sinal. Se eu parar de sorrir no meio do rosnar e ladrar, aí sim, a coisa está preta!

Bjinho.
Vera

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Chemo what?

Tenho andado desaparecida, mas continua tudo no bom caminho no que diz respeito ao cancro e à vida pós-cancro. Com o trabalho, as 500 atividades da criança, casa e cenas, os fins de semana rendem pouco e por vezes o cansaço impede que a escrita tome o seu devido lugar.

Pode não parecer, mas passaram 4 anos desde que regressei ao trabalho, desde que o tratamento “choque” terminou.  Olhando para trás, são já imensos textos acerca de mim, acerca do cancro, acerca deste desencontro que ninguém quer ter na sua vida.

Disse-me o meu querido oncologista, em janeiro de 2015, para eu viver a vida normalmente, não me lembrar do cancro constantemente...deixá-lo no ano 2014. A quimio limpou-me a memória e ainda hoje sinto efeitos secundários a esse nível, mas do cancro não me esqueço e acho que fazendo parte da minha vida, não o devo esquecer, devo é saber conviver com o que se passou, o que ainda se passa e o que pode vir a passar, a qualquer momento.



Este mês há revisão. Na próxima semana volto aos meus amigos marcadores e aos abraços sentidos do meu querido oncologista. Sinto-me bem entregue nas mãos dele, cuidada e lembrada. Poderá haver melhor sensação do que é esta quando se trata da nossa saúde?

Bjinho
Vera

Ps: Graças aos fóruns de apoio, com doentes e sobreviventes, familiares ou amigos, tenho conhecido pessoas espetaculares. É bonito, quando estamos dispostos a ouvir alguém e a ajudar, mesmo que nunca possas vir a conhecer a pessoa. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Os meus CA’s


Os CA’s que me deram hoje alguma paz de espírito são os meus amigos CA 15.3 e CA 125. Não são mais do que marcadores tumorais, pequenos indicadores que nos podem tirar o sono ou ativar os sensores da teoria da relativização e nos deixarem de bem com a vida o resto do dia.

O CA 15.3 é monitorizado para detetar recidivas, mais do que propriamente para identificar novos tumores, mas é, de qualquer maneira, um parâmetro muito importante para sobreviventes oncológicos. Semestralmente, quando não o faço com mais assiduidade, faço análise ao marcador CA 15.3. É uma espécie de “checkpoint”…um marcador muito importante e que, apesar de sofrer variações, convém que sejam pequenas e graduais.

Já o CA 125 é feito de modo mais espaçado, no meu caso, e está associado ao cancro do ovário. Tendo o meu cancro se apresentado como hormono-dependente, é importante vigiar igualmente os ovários para evitar surpresas menos boas.

São análises simples de se fazer, apenas com sangue, e dão-nos a sensação, pelo menos, de estarmos sempre a controlar o processo, ou a vida, conforme lhe queiramos chamar. 

Às pessoas "normais", basta fazerem o exame de auto palpação...eu é que gosto de me armar em fina :P


 
Bjinho e Carpe Diem.

vera
 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

2 anos em obras

Há 2 anos atrás, neste mesmo dia - 6 de setembro,  comecei a estudar a reconstrução pós-mastectomia no caso do cancro inflamatório . Lembro-me de estar aqui sentada no sofá a ler artigos científicos, a sublinhar frases e a destacar números. Taxas de sucesso, de rejeição, número de cirurgias, efeitos secundários e maleitas que seriam inevitáveis, tempos de recuperação, etc, etc...

Com a mania chata que tenho de perceber o que me vão fazer, reuni toda a informação na minha cabecinha para a conversa com os 3 plásticos diferentes que consultei...Sim, 3 plásticos, porque os 2 primeiros indicaram-me soluções opostas. Tive de desempatar com um 3º, que acabou por se tornar o meu cirurgião.

Já passaram 2 anos...é impressionante. Depois de 3 cirurgias, muitas sessões de fisioterapia, muitas dores e incómodo, cortes e recortes, ainda sou uma obra inacabada, mas temos de deixar o corpo sarar e seguir o seu rumo. Na minha última visita ao Porto, com o objetivo de fazer a minha primeira tatuagem, não reuni as condições mínimas a nível de cicatrizes para avançar com essa fase, pelo que o tatuador me recomendou esperar mais uns tempos.

Foi giro entrar num espaço de tatuagens e quebrar preconceitos...ver caveiras, ossos, fotografias de pessoas todas tatuadas, imagens fora da minha realidade, mas encontrei também muita sinceridade, carinho e um toque humano, que me fez sentir que é ali que pertenço e é ali que devo estar para esta fase. Com este cancro, ganhei a noção que as pessoas fazem a diferença nestas andanças. Se confiarmos em quem nos acompanha, temos metade da jornada percorrida.

Daqui a uns tempos, queria ver se dava a obra por terminada. Já parece mais a obra de Santa Engrácia...


Bjinho,
Vera

domingo, 19 de agosto de 2018

Família de coração


Escrevi em agosto de 2014 o seguinte num dos meus “desabados do blog: “Hoje a vizinha Lia (6 anos) quis ver o meu "dói-dói". Diz-me ela depois, com uma naturalidade maravilhosa: "isso está mesmo feio!" Pois está Lia, tens razão. Mas vai ficar melhor, muito melhor, e teremos muitos anos pela frente para os nossos picnics e convívio!”

Vamos arranjando sempre o que fazer, vamos inventando desculpas para não estarmos com as pessoas que não sendo família de sangue, são família de coração. Sabemos que podemos contar com as pessoas, que estão sempre aqui ao lado e isso às vezes ainda é pior, porque facilitamos demais e desleixamos o convívio. Achamos que há sempre o amanhã e o depois.

Ontem foi dia de passeio e picnic com a Lia e respetiva famelga. Fomos à zona de Pedrogão Grande, descobrir as fantásticas praias fluviais que existem por ali. O fogo levou muita coisa, mas ainda há muita coisa para se ver e fazer ali. 

Um dia simples, de picnic e mantinha no chão, de águas limpas e de amizades boas, com jogos e diversão. Terminamos o dia a jantar nos bombeiros de Pedrogão. Se forem para esses lados, vão lá jantar. Levem boa companhia, fazem os nossos dias muito melhores.  



Bjinho,
vera

sábado, 4 de agosto de 2018

Cicatrizes e afins...

Cheguei a uma conclusão nos últimos dias. Cortes no corpo, por mais pequenos que sejam, não gostam de calor.

Retirei uma "cena" da cabeça na quinta-feira, um mísero quisto sebáceo que já existia antes do cancro e que lhe "sobreviveu". Andava a adiar, porque houve sempre coisas mais importantes, mas na quinta lá fui eu tirar a "cena".

Sorri quando a médica me disse que:
- vai ficar com uma pequena cicatriz, uns 4 cms,
- vou ter de a espetar na cabeça, umas duas ou três picadinhas,
-vai sentir um pouco de dor depois, porque ainda é um corte jeitoso,
- vou ter de rapar cabelo.

Enfim...pensei eu cá para comigo...só isso?  Venham eles:))

Retiramos o quisto, tenho uma pista de aterragem na cabeça, vários pontos e a comichão da cicatrização a começar a irritar-me com o calor, mas tudo bem. Até porque devia ser das poucas zonas livres sem cicatrizes.

Bjinho
Vera

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Acerca das pessoas especiais


Há pessoas que chegam à nossa vida por causa do cancro. Mas não é por causa dele que ficam, é pela garra, pela amizade, pela solidariedade e pela vontade de fazer mais e melhor por todos.

Há pouco mais de um ano, conheci a Cristina no momento em que ela lançava uma petição…muitos terão pensado que não ia avante, mas dava para notar na voz dela que a “empreitada” ia seguir em frente. Sobreviver a um adenocarcinoma e ficar por cá para contar a história é obra, mas ela quis contar a história de muitos outros. 

E assim é e continuará a ser…na preparação da petição, na constituição da associação Careca Power e em tantos outros fóruns ou conversas privadas por aí.

O que eu conheci há 4 anos num grupo de apoio nos EUA, com a Terry, é agora também vivido em língua portuguesa no Careca Power. Não é um fórum específico para o cancro inflamatório da mama, como o dos EUA, mas já identifiquei mais casos ali como o meu do que tinha conseguido ao longo destes 4 anos em Portugal, por outros meios. 

Há pessoas fantásticas por esse país fora e, apesar da minha atividade no grupo ser pontual, fico muito agradecida às pessoas que dedicam horas da sua vida a gerir o fórum e a dar muito de si em troca de nada, apenas a gratidão de todos nós que sentimos e vivemos o cancro.

Se puderem, ouçam a Cristina no próximo sábado pelas 12h na Rádio Renascença, no programa “Em Nome da Lei”. Vai falar sobre a Petição “A favor do Justo Tempo de Serviço do Sobrevivente Oncológico” e sobre as dificuldades sentidas pelo doente/ sobrevivente no regresso ao trabalho.

Vale a pena ouvir. 

Bjinho

domingo, 10 de junho de 2018

Agulhas e comprimidos

Esta semana ri-me algumas vezes com o espanto de algumas pessoas por causa de uma agulha. É verdade, a agulha do Zoladex impõe algum respeito, para não dizer muito respeito.

A primeira vez que a vi, em agosto de 2014, também me espantou e foi espantando pelos meses adiante, até que nos habituamos e aquela agulha grossa e nojentinha passa a ser uma rotina. Fura, deixa implante, sai e sangra um bocadinho. Põe penso, dá beijinho à enfermeira e vai-te à vida.

Nem todas as pessoas precisam disto após cancro de mama (também é usado em cancro da próstata).

Há 3 proteínas que se avaliam no cancro da mama - recetor de estrogénio, recetor de progesterona e o fator de crescimento epidérmico 2...ou em siglas...ER, PR e HER2 No meu caso,  o meu bichinho era triplo positivo - ER+, PR+ e HER+...o que por um lado pode ser bom, por outro não, como em tudo na vida.

A hormonoterapia que faço atualmente (Zoladex + Aromasin) devem-se a esta "positividade" e a imunoterapia (Herceptin) que fiz durante algum tempo foi específica para o fator HER2+.  Felizmente, vai havendo cada vez mais e melhor medicação dirigida. Será este o futuro e conseguiremos tratar com sucesso muitos cancros que por aí virão.

No entanto, não há bela sem senão e a medicação hormonal vai fazendo das suas, especialmente a nível de ossos. Esta semana fiz mais uma densitometria e continua a ser giro ver a cara das pessoas na clínica...do género..."chamei a Vera Mónica, mas não deve ser para este exame!" À custa disto, osteopenia diagnosticada em certas zonas ...e por isso todos os domingos, um comprimido de ácido alendrónico+colecalciferol, para ajudar à perda de densidade óssea...30 minutos de pé após tomar o comprimido para evitar outros males.

E, no entanto, não deixo de andar feliz por andar por cá!

Não se esqueçam de ir fazendo o auto-exame. Não poderemos prevenir todos, mas alguns podem ser detetados e curados. Marquem no calendário um dia por mês para o fazerem para não se desleixarem e perderem o fio à meada.



De resto, a minha vida tem levado o seu curso natural e há que saber ir na onda e aproveitar o melhor que temos e podemos. Tenho de aproveitar agora o sol (com cuidado) para repor níveis de vit. D, sempre em carência severa,  e CARPE DIEM!

Bjinho,
vera


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Utilidade do blog?


Quando se tem um blog sobre um cancro raro, não se espera alcançar grandes recordes de audiência, nem as receitas de publicidade que algumas bloggers conseguem por esse país fora. Os números do acesso para leitura são mais ou menos constantes. Vou escrevendo, partilhando ansiedades, medos, esperanças e informações que podem ser úteis a alguém, eventualmente.E quando sei que fui útil, fico feliz, caramba.

O feedback da “audiência” é tímido, mas tão enriquecedor. 

Saber que a minha experiência, a minha falta de pudor em falar de mamas velhas e novas, de cancro, de medos e de esperanças pode ser um alento num momento menos bom de alguém é o que me faz continuar a escrever, mesmo estando já no 4º ano pós-tratamento choque.  E quando me dizem que o 5º ano é a meta, eu sorrio e esclareço…o cancro inflamatório da mama deve ser seguido até ao 10º ano. Um pouco mais e o desgraçado entra para a universidade.  

 Vou recolhendo informação, conselhos a nível de alimentação, desporto, estilos de vida, mas por vezes falta o tempo para sentar e escrever.  Em breve, uma nova etapa…vou entrar no mundo dos “tatuados".  

Bjinho,
Vera

PS. A título de curiosidade: há 4 anos atrás, meados de maio e ainda em quimio (ainda faltavam 4 para a veia) , e já começava a renascer a minha bela cabeleira :)
É a coisa que menos nos importa, mas ficamos muito felizes quando sentimos que temos qualquer coisa a ocupar o seu devido espaço!



 

domingo, 29 de abril de 2018

Os chamados "cagaços"

A minha vida enquanto sobrevivente oncológico recente é vivida com a intensidade possível, com a noção do dever e do poder nas medidas certas, com a certeza que o mais importante da minha vida é a minha família e tudo o que a eles diz respeito.

A minha vida enquanto sobrevivente oncológico recente também tem os chamados "cagaços". Nas últimas 3 semanas comecei a notar algo diferente no peito.... Há 2 semanas, depois daqueles dias a tentar convencer-me que estava a sentir coisas, acabei por ir fazer uma ecografia e uma mamografia. Não vale a pena ignorar o que se consegue apalpar :)

Algo me dizia que não era "mau", mas mesmo assim, fora de normal. O medo que algo volte e nos leve desta vida é forte e será sempre um companheiro a respeitar. Ter medo faz-me viver mais e melhor, faz-me viver as coisas com outra visão. Faz-me sair a horas do trabalho para ir buscar a minha filha à escola, faz-me ter prazer em acompanhá-la nas 1001 atividades, faz-me entender melhor as prioridades no dia-a-dia.

O cagaço tomou a forma de pequenos caroços/ massas, que começaram a surgir nas zonas "trabalhadas" na cirurgia de fevereiro. Realmente, esta cirurgia ainda não tinha dado chatices, a pele aguentou-se bem com novos cortes e as marcas destas últimas lipoaspirações desapareceram depressa. Vieram agora as chatices. Os exames mostraram pequenas bolsas de gordura, tipo quistos, que se formaram nos locais onde se fizeram os enxertos de gordura, que possivelmente contém tecido necrótico....basicamente gordura que não foi devidamente absorvida/integrada e o corpo encapsula-a como medida de defesa. O meu cirurgião plástico deu-me o nome médico para isto, mas já nem consegui absorver essa informação. Chamem-lhe o que quiser, menos cancro!

Vamos agora acompanhar isto, se continuar a crescer, poderá ter de ser "aspirado" ou qualquer coisa que me soou a "ouch", mas quero acreditar que o meu organismo se vai livrar disto. Acho que depois de o cirurgião me ter visto na sexta-feira, isto até começou a "desinchar"...ou isso, ou foi mesmo o cagaço que se começou a desvanecer...

Bjinho,
Vera