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quarta-feira, 12 de março de 2025

Soneca, costura e steri-strips

 Há 8 dias atrás, estava eu na azáfama de pré-cirurgia. Documentos e exames médicos, organizar o dia em que ia estar fora, transportes e dormida da Rita em casa da amiga, porque a entrada no Hospital da Arrábida era cedo. Por mais experiência que se tenha, há ali sempre um nervoso miudinho que se instala no dia anterior e que se tenta camuflar com as verborreias do costume..."é só mais um corte"!

Pois então, mais uma ida ao bloco porquê?
Segundo o Nuno, eu gosto e tinha saudades do bloco. Sadomasoquismo, segundo ele. 

Só que não...não é gosto pelo bloco, mas também não se pode dizer que me cause estranheza nem qualquer sentimento de aversão. É o que é, é o que tem de ser.

Uma espécie de quisto que se formou na última cirurgia de reconstrução e que se manteve aqui, mais ou menos, sossegadito até novembro passado. Mas quando infeta e cresce e cria calor no peito, a sensação é algo estranha e de desassossegar até as almas mais sossegadas.  Especialmente as almas que tiveram cancro inflamatório da mama e cujos sintomas envolvem calor, inflamação e alguma dor. 

Uma ida ao oncologista sossegou os ânimos na altura, uma ecografia mostrou tecidos nada suspeitos...antibiótico, anti-inflamatórios e bota para casa. Só que voltou a manifestar-se pouco depois novamente e ultimamente lembrava-me da sua existência de forma pouco simpática. 

Gosto pouco que me incomodem e não o convidei a instalar-se. Portanto, mais um corte, mais uma cicatriz em cima da outra e mais uns dias a dormir sem posição e a ganhar calo num certo sítio. Lembrava-me um destes dias que dormi mais de 3 meses de barriga para cima, semi-sentada, quando fiz a  primeira grande cirurgia. Portanto, há que aguentar agora uns dias.

O dito cujo foi para análise, como todos os tecidos que são retirados e em breve vou saber que o "nódulo de citoesteatonecrose" não passava disso mesmo...uma cena com nome feio no meu peito. 

E, com isto, voltei a descobrir que com cicatrizes frescas se devem evitar a tosse, os movimentos bruscos ou a vontade de ser independente e de fazer tudo sozinha. Pior do que tudo, é mesmo tentar controlar os meus "espirros silenciosos" e toda a turbulência que causam nos meus steri-strips!
O Olaf entende-me bem!


Para quem está na luta, coragem e boa disposição.
O cancro não gosta de hormonas felizes. 

Beijinho

vera

 Ps. Para o meu sobrinho M., 2 entradas no blog e ainda só estamos em março! Este ano promete!!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Tensão q.b.

Uma ida ao cirurgião plástico é um momento de tensão.

Tensão q.b., entenda-se,  porque as preocupações não são estéticas no meu caso. Há uns quilos a mais, estupidamente concentrados em alguns sítios, mas convivo bem com eles. Esta tensão vai depois desvanecendo ao longo do dia e chega-se ao fim do dia com a sensação de ter ido ao Porto a pé.

Passados 3 anos voltei ao sítio onde senti mais dores na vida...e voltei com um sorriso nas trombas. É preciso ser parva e esquecer que houve momentos em que me apetecia bater em alguém!

Com o covid, fui adiando a consulta de seguimento, mas devemos começar o ano a limpar assuntos pendentes e esse era um deles.

Uns quistos derivados do "lipofilling" precisavam do olhar clínico. Assim que o tiveram, ficaram felizes por saber que não os vamos incomodar nem com aspirações nem com cirurgias. É mesmo para deixar o organismo tratar disso, com o tempo que precisam, com a calma que exigem e com a descontração de quem já olha para os quistos com ar de "Achas que me incomodas depois de tudo o que já vivemos?"

Keep it simple!

Beijinho.





segunda-feira, 20 de maio de 2019

Revisão dos 63...

Na minha última revisão de oncologia, depois de toda a simpatia, lá vieram os 63kgs à conversa e a taxa de colesterol bem acima dos valores pseudo-normais. Acho que só grávida tinha atingido os sessentas...e isso desapareceu passado uns meses.

Como a medicação hormonal tem estes efeitos secundários (entre alguns outros ainda mais desagradáveis), lá terei eu de entrar em modo "regime". Vamos evitar a palavra "dieta" que me fere os ouvidos. Até à próxima consulta, em agosto, baixar ambos os valores e as ordens do Dr. Leal são para cumprir, até porque ele sabe bem do que fala.

De resto, exames todos em conformidade e siga para a frente com isto. Em breve atingirei o que muitos consideram ser a 1ª meta - os 5 anos pós-tratamento. Já????

 É relativa esta contagem e há sobreviventes a contar este tempo de maneira diferente, mas considero, no meu caso e para este efeito a data de conclusão do "tratamento choque" - quimioterapia+mastectomia+radioterapia.

Agosto de 2014 foi uma espécie de libertação, até porque literalmente estava a "libertar" cenas queimadas pela radioterapia (humor negroooo).


Assim tem sido o caminho...


1- Quimioterapia neoadjuvante - início a 8-01-2014

4 ciclos de AC + 12 de Herceptin e Paclitaxel

2- Cirurgia - Mastectomia radical modificada a 17-06-2014
3- Radioterapia - 26 sessões, 10 com bólus

Início a 14-07-2014

4- Herceptin (3 em 3 semanas, 1 ano)

De 05-04-2014 a 31-03-2015

5 - Tamoxifeno (interrompido)

De 01-07-2014 a 7-10-2014


6- Zoladex (1 mensal, 5 a 10 anos)

Início a 8-08-2014


7. Aromasin (diário)

Início a 8-10-2014

...e este caminho vai-se fazendo...primeiro os 5, depois os 10 anos e por aí em diante.

Beijinho e coragem a quem está na luta.
Vera

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Obras e tatuagens

A paciência que temos de ter em processos de reconstrução diz muito sobre nós e sobre os cabelos brancos que vamos ganhando ao longo do tempo. Passou mais de 1 ano desde a última cirurgia, que fiz em fevereiro de 2018. Só hoje fui completar o próximo passo desta "Obra de Santa Engrácia".

Acredito que a pressa é inimiga da perfeição, por isso dar tempo ao corpo para recuperar e cicatrizar bem é o ideal para o corpo, mas nem sempre para a mente.

Passo nr. 4 da obra concluído, tatuagem feita e a precisar agora de algum tempo para cicatrização e normalização da pele. Ainda ficam a faltar uns retoques no estuque, mas Roma não se fez num dia. So far, so good!



Obrigada Orfeu, não só pela tatuagem, mas pelo carinho e à vontade que me fez pensar voltar aí um dia para esconder a entrada extra que me abriram para a quimioterapia. Para se ser um bom profissional, também é preciso ser um bom ser humano e esses, felizmente, vou encontrando ao longo desta minha jornada.

Bjinho,
vera


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

2 anos em obras

Há 2 anos atrás, neste mesmo dia - 6 de setembro,  comecei a estudar a reconstrução pós-mastectomia no caso do cancro inflamatório . Lembro-me de estar aqui sentada no sofá a ler artigos científicos, a sublinhar frases e a destacar números. Taxas de sucesso, de rejeição, número de cirurgias, efeitos secundários e maleitas que seriam inevitáveis, tempos de recuperação, etc, etc...

Com a mania chata que tenho de perceber o que me vão fazer, reuni toda a informação na minha cabecinha para a conversa com os 3 plásticos diferentes que consultei...Sim, 3 plásticos, porque os 2 primeiros indicaram-me soluções opostas. Tive de desempatar com um 3º, que acabou por se tornar o meu cirurgião.

Já passaram 2 anos...é impressionante. Depois de 3 cirurgias, muitas sessões de fisioterapia, muitas dores e incómodo, cortes e recortes, ainda sou uma obra inacabada, mas temos de deixar o corpo sarar e seguir o seu rumo. Na minha última visita ao Porto, com o objetivo de fazer a minha primeira tatuagem, não reuni as condições mínimas a nível de cicatrizes para avançar com essa fase, pelo que o tatuador me recomendou esperar mais uns tempos.

Foi giro entrar num espaço de tatuagens e quebrar preconceitos...ver caveiras, ossos, fotografias de pessoas todas tatuadas, imagens fora da minha realidade, mas encontrei também muita sinceridade, carinho e um toque humano, que me fez sentir que é ali que pertenço e é ali que devo estar para esta fase. Com este cancro, ganhei a noção que as pessoas fazem a diferença nestas andanças. Se confiarmos em quem nos acompanha, temos metade da jornada percorrida.

Daqui a uns tempos, queria ver se dava a obra por terminada. Já parece mais a obra de Santa Engrácia...


Bjinho,
Vera

sábado, 3 de fevereiro de 2018

3ª cirurgia


Mais uma cirurgia, desta vez já com o pensamento que é a última (ou deve ser a última consoante os resultados). Aperfeiçoamentos a fazer nestas situações há sempre, mas também temos de saber quando parar, não vá virar uma plastic freak.

Dei entrada no Hospital dos Lusíadas às 7h30, saí por volta das 13h. Quase mais rápido ir ao bloco operatório do que ir às compras. Implicou mais uma anestesia geral, mas bem mais leve desta vez, até porque o tempo no bloco foi bem mais reduzido do que nas vezes anteriores. Demos uns últimos retoques, em jeito de bate-chapas a recuperar uma amolgadela de um carro novo e, tirando um outro acrescento ainda a fazer em breve, vamos dar por encerrada esta fase de reconstrução da mama. É impressionante o trabalho do cirurgião plástico, este esforço para manter na mulher mastectomizada a sensação de pseudo-normalidade.

Perguntaram-me muitas vezes, diretamente, porque estava eu a sofrer isto tudo só por causa de uma mama. Tanta gente que vive só com uma mama, ou sem as duas…seria pelo marido…pela filha…pela sociedade?

Não, foi por mim mesmo, e talvez, em segundo plano, um pouco pela Rita, porque na altura da mastectomia lhe disse que depois o médico fazia outra mama. Era preciso desvalorizar aquele ato naquela altura, tendo ela 4 anos.

Porque passar por 3 cirurgias, duas incluindo lipo-aspirações, para agradar a outros seria mais um sinal para me internarem. Estas coisas doem, deixam-nos todas pisadas e cheias de nódoas negras. Como raio fazem isto só para ficar sem as banhocas? 

 


Tirando o incómodo dos hematomas, os buraquinhos espalhados pela barriga (por onde fazem as lipos) e os pontos no peito, está tudo a correr normalmente e espero recuperar bem melhor e mais depressa desta vez.

Bjinho
Vera 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Life goes on

Está na altura de regressar à vida ativa e retomar os meus afazeres. Life goes on, como se costuma dizer.  26 dias depois da mastopexia, é caso para dizer que já não há perigo de queda, ainda que mantenha uma zona com algum hematoma e cicatrizes que me parecem verdes e frágeis, mas ainda vai demorar até me dar a sensação que não vai abrir a qualquer momento:)

Normalmente, o meu cirurgião dá-me um tempo de recuperação indicativo e eu desrespeito-o. Devo estar a ficar velha, o corpo já não recupera como antigamente (antes do cancro e todos os tratamentos) e levo um bocadinho mais a recuperar fisicamente. A sensação de cansaço vai-se atenuando e é preciso agora começar a voltar à normalidade para retemperar energias e vitalidade. A ginástica ainda terá de esperar mais uns dias, porque ainda estamos em fase de "libertação" das cicatrizes e é capaz de ser ligeiramente incómodo andar aos saltos.

Continuarei as massagens de drenagem linfática, com a querida Ágata, que por mais simpática que seja, me consegue assustar quando me deita as mãos em cima. É só uma massagem, de facto. Pena é que incide em cicatrizes e hematoma.

Estamos já em novembro. Este ano vai ficar na memória pelas 2 grandes cirurgias neste processo de reconstrução e de recomeço e no próximo ano espero conseguir finalizar o mesmo, já com intervenções menos invasivas e menos exigentes fisicamente.

Perguntei-me várias vezes se este era o caminho a percorrer, se valia a pena todo o sofrimento físico e psicológico. No fim do processo, darei uma resposta mais assertiva, mas neste momento tinha mesmo de o fazer. Por mim e por todos à minha volta, especialmente a Rita.

Em 2014, pouco antes da mastectomia, expliquei-lhe que o médico teria de tirar a mama, porque o "dói-dói" estava lá dentro. Ela tinha 4 anos, pouco entendia de doenças e de mamas, mas sabia que era uma parte de mim. A olho nu, a mama estava normal, por isso ainda mais estranho lhe parecia. Perguntou se eu ficava sem mama e eu disse que depois o médico fazia outra, quanto acabasse de tomar os "remédios maus".

No cancro de mama inflamatório, não é recomendado que se faça reconstrução imediata. A mama afetada tem de ser retirada, os tecidos bem escrutinados e limpos na caixa torácica e eliminar o máximo de pele possível...depois é bombardeada com muita radioterapia. É recomendado esperar no mínimo 2 anos até que se comece a pensar na reconstrução e nunca insisti nesse sentido com o meu oncologista. Demos quase 3 anos ao corpo e à pele para se regenerar, porque fiquei tão queimada que ainda hoje sei exatamente os limites da zona atingida pela radiação. Churrasquinho :)

Enfim, life goes on mesmo. Já estamos quase no fim do ano, o Natal está aí à porta e já posso voltar ao trabalho na segunda. Retenho dos dias bons as coisas boas e dos dias maus as coisas más. Não me consigo esquecer delas, até porque fazem parte deste caminho que não escolhi, mas que tenho de viver.


Bjinho,
Vera

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A amarelar


Terminaram as Lovenoxs, o antibiótico e os “pain killers” e eu cá estou, 11 dias depois da cirurgia e já em regime semi-autónomo.

Para variar, tenho de vigiar as cicatrizes e edemas com algum cuidado, porque como diz uma certa alentejana, este corpinho esbelto já está farto de sofrer e demora um bocadinho mais a recuperar das invasões plásticas. O corpo ainda está pisado, ainda dava umas belas fotos para o catálogo da United Colours of Benetton, mas não há dores (desde que não considere que posso fazer tudo o que quero). 

Informação útil: estou a "amarelar" :)

 

Sinto-me mais equilibrada fisicamente e, apesar de repensar as minhas opções sempre que acordo no recobro toda dorida e zombie, sinto que estou no caminho certo. Sim, no caminho, porque isto ainda não acabou.  Tudo a seu tempo, como deve ser.

Beijinho

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Secound round: ouch!


Já no conforto de casa, reitero a posição que assumi anteriormente em relação às plásticas….submeter-se a invasões destas só para ficar mais “bonito” pode ser claramente assumido como um sinal de loucura.

Não quero com isto dizer que no meu caso também não exige um pouco de loucura…ou até bastante se virmos bem as coisas. Poderia ter ficado com o corpo que o cancro me deixou, mas a verdade é que passando aquele primeiro impacto de “susto de morte”, a vida faz-nos querer mais qualquer coisa…nem que o qualquer coisa seja só um soutien completo e uma camisola a assentar direito.

Piadas à parte, na segunda-feira, pelas 16h entrei para o bloco, para a segunda grande cirurgia, no que diz respeito à reconstrução mamária por via de retalho abdominal (aka TRAM). Prevista para demorar mais ou menos 1h, acabei por sair do bloco já mais tarde, perto das 18h. Sempre bem recebida no bloco, com uma equipa de enfermagem muito carinhosa…uma delas até se lembrava do meu TRAM…e da pele em mau estado. Yep, sempre bom deixar boas recordações nas pessoas.

O que fui fazer desta vez?
Ora pois, cirurgia de simetrização (vulgo "equilibrar o velho com o novo" ou mastopexia em termos técnicos), retificar algumas cicatrizes e colocar uns pequenos shots de gordura na mama reconstruída para ficar mais “lindinha”. A questão é… de onde vem a gordura num corpo não “cheio”?

Lipoaspiração…o segredo de beleza de muitas senhoras. E eu só vos digo que estou toda pisada. Parece que fui atropelada por um camião. O meu cirurgião escarafunchou os flancos e costas à procura da bendita gordurinha boa…e pelas marcas que deixou, deve ter sido uma aventura.


Felizmente eu estava a dormir. Mais uma anestesia geral, mais uns meses de falhas de memória, nomes que me vou esquecer, coisas que não me vou lembrar de fazer…

Acordei bem da cirurgia e da anestesia, se bem que a noite no hospital foi algo premonitória. Acordei, para variar, de madrugada cheia de sangue…revivi o filme dos pontos rebentados imediatamente, mas não era nas mamas felizmente, eram só uns buraquinhos da barriga a “verter”.

Às 6 da manhã vem a medicação e o barulho dos carros na rua e lá se vai o sono de beleza. Ao contrário da cirurgia anterior (que envolveu o corte na barriga), desta vez levantei-me suavemente com a ajuda do enfermeiro, sem desmaios nem quebras de tensão súbitas. Conseguir ir ao wc é uma vitória.

Quando o médico me vem ver de manhã, vi no olhar dele que algo não estava bem...a mama “velha” estava estranhamente volumosa. Já o tinha sentido quando acordei, mas pensei que fossem paranóias da minha cabeça. Com tanto medo de formar hematoma ou seroma, pensei que estava a imaginar coisas, mas não estava mesmo. Tenho de vigiar bem, tentar colocar algum gelo e caso note mais alguma alteração a nível de cor ou volume, tenho de ir ter com o médico para ele “aspirar”…esta palavra até me deu arrepios….aspirar???

Dormi mal esta noite e não foi só pelas dores nas costas, bacia, barriga e afins… acordei umas 4 vezes para colocar pomada e ver como estava a evoluir. Parece que não houve evolução no sentido negativo, o que é muito bom neste momento. Nem tudo corre bem à primeira, pelo menos comigo. Tem de haver sempre esta emoção.

Com a minha mãe a querer alimentar-me tipo ganso na França, apenas posso dizer que na próxima lipoaspiração, já devo ter gordura para mais “shots” de gordura. 

Obrigado pelas mensagens de apoio.
Beijinho
Vera

sábado, 7 de outubro de 2017

Em estágio

Estou em estágio e não, não é pelo facto de o nosso Illiabum jogar hoje no Dragão Caixa, até porque a Rita já disse que o Illiabum vai ganhar ao Porto hoje. Assim esperamos, equipa!

Estou em estágio, na verdade porque se aproxima a segunda cirurgia. Na máquina de lavar, fazem-se as últimas lavagens de pijamas, cintas, soutiens pós-cirúrgicos e meias....as benditas meias de compressão que me custaram os olhos da cara. Sorte a delas que eu não sou uma mulher violenta, porque se há coisa desconfortável de usar, são mesmo as meias de compressão altamente sexys!

Amanhã é dia de fazer a mala, para mais um dia no hotel.
Wish me luck!

Bjinho e curtam o sol, porque a vitamina D faz muita falta ao nosso organismo!


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Dia do fisioterapeuta

Parece que agora há dias para tudo e mais um par de botas atualmente.
Dia do João, do Pedro, da Maria e do Manuel....e hoje é dia do fisioterapeuta, segundo consta.

Pois, parece que vou ter de elogiar a minha fisioterapeuta, senão ela depois vinga-se de mim e acreditem...com pequenos gestos que me pareciam inofensivos há uns tempos, apetece-me berrar em certas alturas, ou simplesmente bater-lhe com o braço que está livre, mas...tenho mesmo de me controlar para evitar ofensas corporais à terapeuta.



Vou tendo sempre sorte com as pessoas que encontro nesta aventura do cancro (exceptuando a equipa médica do hospital onde me tentei tratar inicialmente). E com a fisioterapia também tive essa sorte. Pessoas que aliam a capacidade técnica à boa vontade, à simpatia e à amizade com os pacientes.

A Stela, logo após a mastectomia e radioterapia, que tinha imenso cuidado comigo para não rasgar ainda mais a pele e me fazia sempre ficar bem disposta com o seu bom humor e capacidade de ver o copo sempre meio-cheio (e não meio-vazio). Ainda hoje a Rita me fala da massagem que a Stela lhe ensinou a fazer às mãos da mamã.

Mais recente, a Mónica tem ajudado a libertar movimentos, tecidos e outras coisas estranhas derivadas da reconstrução mamária. O fisioterapeuta desempenha um papel fundamental nestes processos, e ainda que fisicamente às vezes, ela me leve a querer espancá-la, a verdade é que a evolução sente-se de forma contínua e é com esse foco que a visito 3x por semana. Por isso, e pelos seus lindos olhos :)

Obrigado a ambas, porque de facto não é preciso ser só bom tecnicamente. É preciso saber cuidar e ser boa pessoa para o paciente se sentir seguro convosco.

Beijinho,

Vera

segunda-feira, 17 de abril de 2017

42 dias de...penso!

É isso mesmo...sempre que penso que já se passaram 42 dias após cirurgia, também penso nos "pensos" que tenho feito diariamente. Tem sido dias e dias a fio a fazer penso numa das zonas em que rebentaram os pontos inicialmente e depois o hematoma. Não é que doa, porque de facto não dói ( a não ser aquela parte em que o Dr. Conde me espremeu manualmente e depois a bendita drenagem).

Não dói, mas é chato para caraças. É a prova que não vale a pena planear nada, porque não é a nossa vontade que determina o sucesso ou insucesso das coisas, nem o rumo que queremos tomar. É a própria sorte ao jogo, ou o azar talvez.

Ainda hoje escrevia a uma das minhas amigas americanas (a fundadora do grupo de apoio) que ainda não há "regrets" aqui por este lado, mas não é tudo um mar de rosas, como deveria ser. Por lá também não.  Ela foi operada no mesmo dia que eu e fez reconstrução bi-lateral após vários anos sem sequer equacionar sujeitar-se a esta cirurgia. Estava tudo a correr lindamente com ela e fiquei feliz por ela, porque ela merece tudo de bom. Fomos sempre comunicando e eu ia-lhe enviando fotografias do meu caso para ela acompanhar e aconselhar, como tem feito ao longo destes 3 anos.

Após 42 dias, eu consegui acordar hoje com o penso limpo. Olhei umas 3 vezes para ter a certeza...espero que seja desta, porque sem isto estar resolvido, não podemos avançar para os passos seguintes (drenagem linfática e massagem localizada). Estava para lhe enviar mensagem com essa informação e vejo um post dela com a informação que teve um seroma (=acumulação de líquido) na cicatriz do abdómen.

Olhei para a minha cicatriz abdominal (36 cm de puro prazer) e proibi-a de se armar aos cágados!

Já tive a minha quota parte de pensos! Desinfeta mãos, limpa área, aplica creme, gaze esterilizada, penso a fechar...Qualquer dia tenho equivalência à licenciatura em enfermagem..se os outros têm equivalências, também posso ter, certo?

 

Bjinho,
Vera

 Ps. Amanhã inicio as sessões de fisioterapia para recuperar mobilidade e amplitude no braço direito. Não é que a besta de uma fibrose se foi formar ali bem perto do músculo peitoral e me bloqueia os movimentos? Devo ter mesmo muita sorte ao amor...



domingo, 12 de março de 2017

Retalho e Retalho, Lda.

 
7 dias depois, cá estou eu, uma espécie de “Frankenstina” reconstruída, cheia de pontos, cicatrizes, gaze e adesivo por todo o lado. Só não tenho parafusos…do resto tenho tudo!
Olhando hoje em retrospetiva, estes dias demoraram a passar, caramba!
Em resumo de diário, rápido e com poucos pormenores sórdidos, porque não quero que ninguém desmaie (esta é para a Risy).

Terça-feira, 7 de março
No bloco operatório correu tudo bem. Simpatia e um acolhimento muito carinhoso dissiparam “alguma” ansiedade e receio que por ali pairavam. Musiquinha smooth no bloco, estilo Nip Tuck, pessoal simpático e a transmitir confiança que estava bem entregue. Fui para o bloco às 9 e qualquer coisa, regressei ao quarto 421 pouco depois das 14h, depois de algum tempo no recobro.  A anestesia deve ter sido forte…enjoos e mal-estar geral, sonolência e alguma falta de orientação, mas enfim, faz parte do jogo que eu quis jogar. O charmoso veio para Aveiro relativamente cedo, para a Rita não sentir tanto a ausência e ter companhia no dentista (não vale a pena duplo trauma num só dia).
Por volta do meio da tarde, ao ser observada pelo enfermeiro, apercebemo-nos do primeiro sangramento…um ponto rebentado na zona da axila, muito perto do dreno. Sangue por todo o lado, e eu a prometer à enfermeira uma caixa de ovos moles se tirasse o sangue da cinta e soutien cirúrgicos…100€ cheios de sangue logo na primeira noite….grrrrr…

No meio de alguma gargalhada com a minha aparente descontração, lá me fizeram novo penso, com mais pressão na zona a ver se o ponto se rendia…e sim, de facto este parou de sangrar. Pelas 6 da manhã, sentindo calor e algo estranho no pescoço, reparei no sangue noutra zona, já a escorrer no corpo. Imagem sexy, algo pérfida, mas lá nos rimos…desde que se salve a cinta e o soutien, estamos bem:)

De manhã, o cirurgião plástico esteve a ver o penso, abriu tudo para ver os pontos rebentados e voltamos a fechar. Parecia já estar controlado, pelo que era preciso levantar para evitar coágulos, ativar circulação, ver como me sentia…

Ponto alto do dia: Conversa com a médica anestesista no bloco acerca da medicação que fiz e faço e tretas afins do meu historial clínico. Consegui confundir a senhora, que me perguntou se eu era médica, enfermeira ou se trabalhava no ramo da saúde…qualquer pessoa sabe que o Herceptin reduz a FE, certo??

Ponto baixo do dia: Tirando os vómitos ao fim da tarde/ noite, foi mesmo fazer chichi na aparadeira (vulgo arrastadeira), especialmente depois de termos a zona abdominal toda retalhada e termos de a elevar para nos colocarem um objeto metálico e frio debaixo do corpo…credinho!!

Quarta-feira, 8 de março

Pois, este foi o meu pior dia, de todas as intervenções que já fiz. Apesar de já estar à espera de alguma falta de energia e tensões baixas, uma vez que tinha perdido muito sangue na cirurgia, não imaginava ser uma espécie de boneco de gelatina sempre que me tentavam pôr de pé, ou mesmo sentada. Foi um dia de muitos pontos baixos, muitas dores, desconforto e vontade de andar para trás no tempo. Desmaiei algumas vezes, maldisse os retalhos abdominais, pensei na minha querida prótese fechada no armário, que nunca me tinha dado este mal-estar…estás perdoada, volta!

Sou teimosa, por norma não me queixo de dores, mesmo que as tenha, mas basicamente pedi ao médico para ficar no hospital. E ele realmente assim o fez…com tensão arterial de galinha, sem sequer conseguir fazer chichi sozinha…não pode ir para casa nem suportar a viagem até Aveiro.

A comida do hospital era boa, mas quando chegava o tabuleiro, sempre à hora certa, até se me revoltava o fígado…coitado, com a abdominoplastia está para ali tudo tão encolhido e comprimido que comer era uma espécie de tortura camuflada. Claro que sem comer, o próprio corpo demora mais a recuperar…

Ponto alto do dia: A visita da minha filhota. Pontos rebentados quietinhos e sossegadinhos. Eu a dizer ao enfermeiro que deviam chamar a psiquiatria para quem se submete a abdominoplastias só pela “beleza” do six-pack…tem de ser um problema de foro psiquiátrico.

Ponto baixo do dia: A sensação de desmaio a qualquer coisa que se tente fazer. Um ataque de tosse a meio da noite e a sensação que o umbigo ia sair disparado a qualquer segundo…lágrimas sempre que tossia.


Quinta-feira, 9 de março

O médico neste dia passou apenas à tarde. Já me tinha conseguido levantar e ir ao wc, ainda que acompanhada. Drenos ok, mas tensões ainda baixas, cor amarela e ainda muita falta de energia, pelo que ele recomenda mais um dia internada para poder usufruir daquela bela cama articulada e da sport TV no quarto.

Ponto alto do dia: Ir ao wc sem ajuda e ter uma espécie de banho à gato.

Ponto baixo do dia: a sensação que algum animal tinha morrido debaixo dos lençóis sempre que me mexia…


Sexta-feira, 10 de março

A minha filha liga-me de manhã, antes de ir para a escola e eu quase salto da cama, arranco drenos e espanco o pai da criança…ela diz-me, vitoriosamente que vai de manga curta para a escola…ok, decido que está na altura de pôr de lado as abichanices e ir embora para casa. Faz muita falta uma inspectora nesta casa.

O médico passa e vê que estou com melhor aspecto e passa a alta para o fim da tarde, já com retirada de drenos… nesta fase, o meu irmão Nelson, sempre corajoso a ver os pensos, retira-se suavemente do quarto….ahahaha. É por isto que a humanidade depende das mulheres para continuar o seu ciclo de vida.

Saí do hospital apenas perto das 21h, com ânsia de chegar a casa, mas medo da viagem. Acho que senti todas as irregularidades da estrada, paralelos, altos e baixos e, muito carinhosamente, as tampas de esgoto da EN 109 até chegar a casa.

E desde então, tem sido sempre a melhorar. Tensões mais regularizadas, mais energia, ainda amarela, mas a recuperar no bom caminho. Amanhã nova viagem ao Porto para vermos como está.

Cómico deste fim de semana: as minhas vizinhas Lígia e Andreia a darem-me uma espécie de banho, no qual me vestiram  sacos de lixo para evitar molhar os pensos; a Lígia a lavar-me o cabelo na pia da cozinha, a Margarida que me vem deixar um mimo e o pendura na porta do vizinho…enfim…já me ri bastante, se bem que cada vez que me rio, tenho a sensação que me vou desmembrar em pedaços.

Ah beleza, a quanto obrigas!

Bjinho e obrigado pelas mensagens de apoio.

Presente da Rita :)


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Por caminhos incertos, à procura de certezas...

Hoje olhei para trás...tive de o fazer e...caramba, que caminho tenho trilhado desde finais de 2013. Estou cansada só de o ter de relatar, nas mais variadas formas...biópsias, análises ao sangue, Tac's, RMN's, cintigrafias, Rx's, ecocardiogramas, ecografias, mamografias, densitometrias...Ca 15.3 para trás e para a frente...aliás, sempre para baixo, felizmente.


Ando há 2 semanas a preparar o meu processo clínico em formato digital para envio para o que os seguros chamam de Segunda Opinião Médica (Ask Best Doctors). Nunca poderei, na minha vida, falar mal do meu seguro de saúde ( a não ser quando descontam as mensalidades dos 3). Tem sido um fiel amigo e apesar de ter tido de suportar várias franquias agravadas, o certo é que o seguro sempre foi suportando as contas mais pesadas.

Nesta fase deste meu "desencontro", esbarrei novamente na incerteza e no medo de não estar a fazer as melhores escolhas. Consultei, até ao momento, dois médicos diferentes, em hospitais diferentes na área da cirurgia reconstrutiva. Claro está que não me podiam facilitar a vida. Deram-me dois caminhos diferentes, opiniões contraditórias e eu baralhei-me ainda mais.

Estou a par de tudo o que envolve reconstrução de uma mama. Sei quais os métodos, quais as recomendações, quais as taxas de complicação em cada método...não fosse eu quase médica destas andanças:) Só não sei qual o melhor para o meu caso.

Pensava que sabia, estava convencida que ambos os cirurgiões plásticos iam dizer a mesma coisa:
 "D. Vera, como fez muita radioterapia, não poderá fazer A nem B, apenas o C."
...e eu apenas confirmaria o meu "veredito caseiro". Mas não, eles tinham de inventar e baralhar este meu cérebro.Um disse para fazer o A, o outro o C ou talvez mesmo o D.  Isto são apenas letras a marcarem métodos, nada que ver com copas, não se baralhem.

E a Vera perguntou...então e se eu quiser fazer X, o que acha? E "prontes" um diz que sim, outro diz nem pensar. E entenderem-se, não? Dizerem a mesma coisa a alguém que anda à procura de certezas?
Falei com as minhas amigas americanas, há de tudo por lá também, mas a maioria recomenda apenas 1 dos métodos e costumam estar sempre bem informadas e aconselhadas.

Resumindo, 2 semanas a compilar digitalmente o meu processo clínico, aquele lindinho organizado com separadores...entre scans, downloads,  renomear ficheiros e organizar fotos, perdi algumas horas. Não fiz o meu processo completo, apenas pontos-chave no tratamento e enviei ficheiro com 150Mb para a seguradora.

Agora, depois de conversar com a enfermeira e de ela organizar a informação, o processo seguirá para um especialista, para emissão de relatório acerca do meu caso e das minhas dúvidas existenciais. Deve seguir para os Estados Unidos, segundo me disseram. Espero que venha um relatório assertivo e com o preto no branco.

Entretanto, vou esperar com calma. É uma coisa que não me tira o sono, tira-me mais a paciência mesmo, porque não gosto de incertezas ou dúvidas. Se não estiver certa do que devo fazer, adio.

Até aos 90 anos tenho tempo!

Beijinho


terça-feira, 6 de setembro de 2016

Porta aberta

Abri a porta, ainda sem a certeza absoluta de a querer já abrir. Para a poder abrir totalmente ou fechar, ou pelo menos saber que caminho percorrer, tenho de estar informada, conhecer as estatísticas, rever casos semelhantes, absorver artigos científicos sobre o dito cujo. Aprender para saber ouvir e discutir sobre o assunto. Em breve, consulta da especialidade e segundas opiniões, claro.

Bora lá, que para a frente é o caminho, ainda um bocado a medo, mas indo.


Beijinho,
Vera

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Os chamados desafios!

Comecei por ver imensas fotos no facebook a preto e branco...não percebi o intuito, mas também não questionei. Vê-se por lá tanta coisa estranha, que uma foto a preto e branco em nada me tocou. Nenhuma me tocou, mesmo quando me apercebi que era uma espécie de alerta contra o cancro...fiquei insensível talvez. Muita quimio e radio neste corpinho para ligar a essas pseudo-campanhas de alerta.

Apenas uma foto me fez parar e admirar a coragem. A Rachel, uma mulher com cancro inflamatório da mama que faz parte dos mesmos grupos de apoio que eu "frequento", e que simplesmente se colocou a preto e branco, tal como ela é, tal como o cancro a deixou.

Tão simples quanto isto...chega para alertar os mais distraídos?
Se não chega, leiam as palavras dela.



"Challenge accepted! You want a "cancer awareness campaign"? Here, have this. Everyone is aware of cancer. Telling people where you keep your handbag, what colour your pants are, or writing some cryptic status like "used my boobs to get out of a parking ticket" isn't going to raise anyone's awareness (..) And the latest craze is a black and white photo. How the hell does that raise awareness or raise funds for research? By all means, let's try and have some fun whilst we raise awareness (anyone who knows me knows I have always tried to see the positive or humorous side of things) but it's not just "awareness" - everyone needs to be aware of the signs of cancer and to check themselves regularly. I know the people doing these statuses and pictures have good intentions, so I'm not attacking anyone who has done them. By all means join the "don't forget to check" Facebook group so you get monthly reminders to check your breasts. Set yourself an alarm on your phone. Check every time you're in the shower. Familiarise yourselves with all the symptoms... not just a lump but also a rash, a swelling, a redness, a pain. By all means share this "black and white no make up selfie" of me showing what happens if you have to have a mastectomy. Maybe that will make people check. Maybe that will encourage people to donate. Having cancer isn't fun. Having cancer isn't brave. Having cancer isn't a picture you can post and then hide behind. It's horrible, it's a killer, and it's something we do all need to be aware of in the right way."

Beijinho,

Vera


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Lidar com a diferença

Não é fácil lidar com a diferença aos 34 anos.
Não é fácil lidar com a diferença aos 5 anos.

Esta semana já me ri imenso à custa da minha filha.
Andávamos ontem no marché (vulgo Intermarché) à procura dos ingredientes para fazer "nutella" caseira e eis que passa por nós um senhor, com uma daquelas motas para os mais idosos. Já é normal vê-lo por estas bandas, mora aqui perto da Vista Alegre, mas ainda não nos tínhamos cruzado assim tão perto, de maneira a que a Rita reparasse que o senhor não tem uma perna.

Estava eu a conversar com a senhora da zona da fruta e eis que a Rita me pergunta porque é que o senhor pode andar de mota ali dentro e os outros têm de andar a pé. Expliquei-lhe que o senhor provavelmente teria tido um "dói-dói" e os médicos lhe tinham tirado a perna. Como não podia andar, usa a mota para vir às compras. Pareceu-me a explicação mais lógica, não lhe omitindo que, de facto, ele apenas tem uma perna.

O mais engraçado foi a resposta da catraia. Ri-me eu e a senhora, porque de facto a verdade não ofende ninguém e sendo bem aligeirada, dá para rir e chorar por mais. Responde ela: "Mas oh mamã, tu tiraste uma mama por causa do "dói-dói" e vens às compras a pé!"

Esta indignação heróica da minha filha fez valer o meu dia. É por isto que eu digo que vale a pena tudo o que passei, para a poder acompanhar neste processo de crescimento. O à-vontade dela com a doença, com a ausência, a aceitação da mãe como ela é, faz-me sentir orgulho nela. Faz-me querer ser mais e melhor.

Lamechices à parte, hoje de manhã perguntou porque é que agora os meninos se casavam com meninos e as meninas com meninas, isto enquanto delicadamente se penteava para ir para a escola. Respondi-lhe com a minha opinião sincera: cada um se casa com quem quer, desde que seja feliz.

Vi que ela ficou satisfeita com a resposta. Gosta simplesmente que sejamos sinceros com ela.
Pensei que já estava safa das perguntas, quando ela remata com: "Oh mamã, porque não te casas com o papá!!!"

Oh diabo...


terça-feira, 16 de junho de 2015

1 ano

Hoje, já bem pela noite dentro, fará 1 ano em que fui operada para tirar a mama, onde ainda havia atividade residual do cancro, como se veio a comprovar pela biópsia final. O raio do bicho era forte!

A noite anterior foi brindada com amizade e carinho, por parte de pessoas especiais que me acompanharam desde o início do cancro, o fim de tarde tinha sido terminado com mensagens de força e algumas lágrimas na cara da prima (certo, senhora rijona Sónia). Lembro-me vagamente de preparar a mala, de preparar a casa e orientar as coisas cá em casa para a minha ausência. Realmente, as mulheres conseguem ter uma capacidade de se focarem em tretas para não pensarem no que as aflige. Roupas arrumadas, despensa cheia, ordens dadas e pronto, tudo pronto para ir e voltar dentro de uns dias, já sem o senhor bicho e meia empenada.

E assim foi. No dia 17 de junho, preparei a Rita para ir para a escola e aguardei em casa durante a manhã. Almocei sozinha e lá pelas 14h chegou o Nuno e os pais dele para irem comigo para o Hospital. Quiseram também estar presentes, por mim e pelo filho, porque o Nuno ficaria lá sozinho enquanto eu estava na cirurgia, que demoraria entre 1h30 a 2h.

Sentia-me calma, apesar de tudo o que aquela cirurgia poderia significar. Calma e feliz por já estar ali, por já estar em condições de ser operada. A Dra. Teresa deu-me algumas palavras de conforto e os dois beijinhos da médica anestesista sanaram por completo o nervoso miudinho que por ali começava a crescer. Estou pronta, disse-lhes eu. E logo depois reclamei que estava muito frio no bloco...

18 de junho, algumas horas depois da cirurgia.
E assim foi, adormeci e acordei passado umas horas. Perguntei se já tinham falado com o Nuno e disseram que a Dra. tinha falado com ele, que tinha corrido bem e que o tecido retirado tinha "bom aspeto" e para eu descansar.

Se eu cumpri as ordens? Claro que não! Assim que me colocaram no quarto, aí pelas 2h da manhã, liguei ao Nuno para saber se já tinha chegado a Ílhavo. Estava tudo bem, já em casa e a menina a dormir. Tal como agora, neste preciso momento em que ela dorme aqui ao lado.

Penso que a nossa memória é muito nossa amiga. Vai apagando certos momentos, ou recordações, para que não nos lembremos da dor, da aflição, do medo. Lembro-me de não conseguir levantar o braço e de doer quando tentava, mas já não consigo lembrar-me com exatidão do grau. Lembro-me de me deitar na mesa da radioterapia e ter de suportar o "esticanço" pelo tempo determinado porque não podia haver movimento enquanto fazia a sessão...mas já eliminei a sensação da minha memória. Parece estranho, mas acho que deve ser melhor assim.

Do que me lembro melhor destas "dores" ou sensações foi a retirada dos drenos...que coisa estranha sentirmos tubos a deslizarem por dentro do nosso corpo. O meu comentário parvo quando vi os drenos retirados foi: "isso estava tudo dentro do corpo?"...a enfermeira só se conseguiu rir à gargalhada.

Passou-se 1 ano.

Se sofri? Claro que sim.
Se doeu? Claro que sim.
Se já fiz a reconstrução? Não, ainda não (esta é para quem não tem coragem de perguntar e me olha para o peito com ar de dúvida), nem é recomendado ainda.
Se vou partilhar a informação quando/se fizer? Sim, porque não...nunca escondi nada, nem vejo motivos para o fazer.
Se estou feliz? Estou, porque estou viva, sem sinais de recidiva e com força de vontade para viver por muitos e longos anos. 



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Cancerversário

O meu primeiro cancerversário celebra-se hoje.
É uma expressão que adoptei das guerreiras norte-americanas com cancro inflamatório da mama com quem troco diariamente umas palavras. Deram-me força e alento, apesar da distância física. Muita informação, muito apoio e acima de tudo muita partilha de sentimentos e de experiências de mulheres com o mesmo tipo de cancro de mama.

Faz hoje 1 ano que recebi o diagnóstico, a biópsia que me dizia que era um carcinoma invasor. Tudo tão novo naquela altura, tudo tão inesperado. Sabia lá eu que podiam ser invasores ou não invasores (=in situ), que podiam ser lobulares, tubulares ductais, inflamatórios....que sabia eu de cancro?

Pouco, muito pouco. Ao longo deste ano de luta, aprendi muito sobre cancro, especialmente acerca do cancro da mama. Assustei-me muito quando investiguei o meu tipo específico de cancro. As probabilidades de sobrevivência assustaram-me brutalmente e houve momentos em que nada fazia sentido e a luta interna para me manter bem disposta e coerente era tão grande.

Sobreviver para ver a Rita a crescer, nada mais do que isso, pedia eu a mim mesma.
Lembro-me perfeitamente de estar na festa de Natal da escolinha da Rita. Ia voluntariamente atuar numa das peças e só pensava que tinha cancro enquanto tentava levar os fantoches do circo dos animais até ao fim. Olhava para ela no palco e as lágrimas a querer sair. Mas ela, tão cheia de vida, tão única e teimosa foi essencial neste processo.

E foi a isso que me agarrei, à minha filha teimosa. Talvez tenha herdado a teimosia da mãe, dizem as más-línguas. Lutei, vivi dias menos bons durante a quimioterapia, sujeitei-me à mutilação de uma parte do meu corpo, enfrentei a radioterapia e aguentei as dores nas queimaduras no corpo enquanto a minha querida fisioterapeuta me "recuperava" o braço. Agora a imuno e hormonoterapias...que provocaram uma menopausa precoce, com aqueles calores maravilhosos, mas bem pior que os calores são o inchaço das mãos e dores nas articulações. Peanuts, comparado com tudo o resto.

Passou um ano a correr.  Parece que ainda ontem ia para a primeira quimioterapia, hoje espero e desejo nunca mais a voltar a sentir a entrar nas veias. Ainda sem coragem para dizer que estou livre. Não estou, nem nunca estarei totalmente. Preciso que passe tempo, muito tempo. Já passaram 6 meses depois da cirurgia e tem estado tudo calmo. Como diz o meu querido oncologista, precisamos que o tempo passe depressa e bem, para diminuir as chances de recidiva.

Agradeço todos os dias a Deus, ou ao destino, que tenha colocado este senhor na minha vida. Cuidou, e cuida, de mim com uma atenção que nenhum dinheiro do mundo paga. Obrigado Dr. Leal da Silva, pelas coisas tão pequenas como um sorriso, um abraço ou pelas nossas conversas sobre fins de semana no nosso Portugal.

Para a semana, segundo check-up trimestral. Vai estar tudo bem e vou voltar ao trabalho em janeiro. Hoje fui a mais uma junta médica. Mais uma experiência sobre-natural, mas hoje não é dia para criticarmos o nosso sistema.

Obrigado a todos que estiveram comigo este ano, que me apoiaram nas coisas maiores e mais pequenas. Este cancro meteu-se com muita gente ao alojar-se no meu corpo.

Bjinho,
Vera


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Relato de pós-cirurgia

Após 8 dias, eis que apareço para sossegar os mais curiosos. Logo no dia seguinte à cirurgia, tive de colocar alguma informação no FB, porque eram imensas as chamadas e não tinha ainda disposição nem vontade física para tanta atividade.

Sim, consigo escrever. O braço direito está ainda confinado a um uso muito restrito, por isso imaginem o tempo que este post vai consumir. Lavar os dentes com a mão esquerda também é giro. Experimentem...

A cirurgia correu conforme planeado. Entrei para o bloco perto das 21h30h e pelas 23h15 a minha querida cirurgiã já estava com o Nuno a informar que tinha corrido tudo bem e que eu estava no recobro (nome estranho para uma sala cheia de pessoas a apitar). Acordei bem da anestesia, ainda liguei para casa às 2 da manhã para saber se o charmoso tinha chegado bem.

O dia seguinte começou cedo. Pouco passava das 7 da matina e a Dra. Teresa já me dizia bom dia. Informou que o tecido retirado estava bonito (estranha forma de beleza) e que a análise nos iria agora dizer o resto. Escusado será dizer que eu também estava com bom aspeto :)

O meu querido oncologista também me visitou à tarde e disse-me com aquele ar encantador “Oh D. Vera, está fina e fresca que nem uma alface. Nem parece que foi operada. Até o seu cabelo está bonito.”
E não querem vocês que eu idolatre este Dr. Leal da Silva. É um excelente oncologista e acima disso, um ser humano fantástico.

E já se passou quase uma semana. Entre algum desconforto, dores quando acho que o braço está normal e me aventuro, drenos (um deles ainda resiste aqui pendurado), enfaixamento do peito para drenar melhor e o facto de dormir sozinha para evitar atropelamentos, está a correr tudo bem. A cicatrização está a correr bem. Volto na sexta para ver se retiro o dreno. É uma seca andar com um tubo e uma garrafa pendurada em nós. Especialmente porque há alturas em que me esqueço e ….

O que mais sobressai da cirurgia?
-O enorme alívio de ter tirado o bicho, esperando com todas as forças que a mastectomia e o esvaziamento axilar tenham sido suficientes para o travar e que as análises do tecido venham boas.

- A amizade que muitos têm por mim e cuja demonstração tem sido incansável. Mensagens, telefonemas, flores, bolinhos e muita preocupação comigo.  Até há por aí uma vizinha (Lígia) que pediu à avó para matar uma galinha caseira  e tinha o jantar pronto para me receber :)

Posso pedir mais?
Bjinho