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terça-feira, 6 de outubro de 2020

O bendito outubro rosa.

Chegou o outubro rosa. 

Toda a gente pode falar de mamas, postar laços cor de rosa e fotos de mamas por todo o lado e não há condenação social. 

Nunca vi o outubro como rosa, nem gosto particularmente que se comemorem coisas que deviam estar enraizadas na nossa mente e nos nossos hábitos. Prevenir durante os 12 meses. O outubro é só rosa, nada mais.

Não há preferências, não há maneira de nos excluirmos da prevenção, só porque não temos ninguém na família com cancro. É uma ilusão tão grande, mas ainda paira na cabeça de muita gente. Depois chega o susto, porque achamos que só acontece aos outros.

Devemos ter medo q.b., mas aquele medo que nos faz ter atenção com os sinais, que nos faz ouvir o nosso corpo e nos faz seguir os protocolos de exames de rotina. Não o medo da vida...seja ela rosa, amarela ou às pintinhas.


Em 2014, peguei num texto que enumerava os fatores de risco para ter cancro de mama e analisei à luz da minha experiência. Já lá vão alguns anos, felizmente, mas copio abaixo o texto. Vale a pena recordar tanta coisa que não encaixava no "perfil".

Enjoy it :)

Vera

"Analisando os fatores e a minha situação em concreto:

  • Idade: a possibilidade de ter cancro da mama aumenta com o aumento da idade.
    Eu tinha 33 no momento de diagnóstico.

  • História pessoal de cancro da mama: uma mulher que já tenha tido cancro da mama (numa mama), tem maior risco de ter a doença na outra mama.
    Nops...

  • História familiar: o risco de uma mulher ter cancro da mama está aumentado se houver história familiar de cancro da mama.
    Apenas uma tia do meu pai teve e já não era jovem. Ainda cá está para contar a história dela.

  • Algumas alterações da mama: algumas mulheres apresentam células mamárias que parecem anormais.
    Fazia ecografias mamárias de 6 em 6 meses. Sempre tudo normal.
     
  • Alterações genéticas: alterações em certos genes (BRCA1, BRCA2, entre outros) aumentam o risco de cancro da mama.
    Fiz esta análise já durante o tratamento e deu negativo felizmente.

  • Primeira gravidez depois dos 31 anos.
    Nops...antes dos 30 e amamentei a Rita durante +- 1 ano.

  • História menstrual: mulheres que tiveram a primeira menstruação em idade precoce (antes dos 12 anos de idade), ou uma menopausa tardia (após os 55 anos) ou que nunca tiveram filhos.
    Fui normal neste aspeto, pelo menos na parte da primeira menstruação. A menopausa não deve ser tardia :(

  • Terapêutica hormonal de substituição: mulheres que tomam terapêutica hormonal para a menopausa, durante 5 ou mais anos após a menopausa.
    Ainda não lá tinha chegado, mas agora já faço hormonoterapia.

  • Raça: o cancro da mama ocorre com maior frequência em mulheres Caucasianas (brancas), comparativamente a mulheres Latinas, Asiáticas ou Afro-Americanas.
    Yep...I'm white.

  • Radioterapia na região peitoral: mulheres que tenham feito radioterapia na região peitoral, incluindo as mamas, antes dos 30 anos, apresentam um risco aumentado para cancro da mama.
    Fiz agora, mas para combater o bicho.

  • Densidade da mama: mulheres com idade mais avançada que apresentam, essencialmente, tecido denso (não gordo) numa mamografia (raio-X da mama), têm risco aumentado para cancro da mama.
    Sempre tive o tecido mamário muito denso, daí as ecografias periódicas que o meu ginecologista sempre me aconselhou.

  • Obesidade depois da menopausa: mulheres obesas, após a menopausa, apresentam um risco aumentado de desenvolver cancro da mama.
    Mais uma vez, ainda não tinha chegado lá, nem me deram a oportunidade de engordar :)

  • Inactividade física: mulheres que são fisicamente inactivas, durante a sua vida, parecem ter um risco aumentado para cancro da mama; estar fisicamente activa pode ajudar a diminuir este risco, através da prevenção do aumento de peso e da obesidade.
    É estúpido, mas eu e o meu charmoso tínhamos entrado para o ginásio poucos meses antes do diagnóstico. Não considero, no entanto, que estivesse fisicamente inativa, até porque com uma pestinha de 3 anos, seria difícil ser inativa cá em casa!

  • Bebidas alcoólicas: alguns estudos sugerem haver relação entre a maior ingestão de bebidas alcoólicas e o risco aumentado de ter cancro da mama.
    A minha boa disposição (quase sempre) não depende do álcool. Beber um copo de vinho ou uma cerveja de vez em quando chega-me. "

domingo, 22 de março de 2020

Ficar em casa!

Hoje é dia 22.

Na prática, não saio de casa desde dia 13 e, felizmente, já estava em tele-trabalho em casa desde dia 11.

Nestas circunstâncias, é preciso saber estar em casa, o que muitas vezes não é fácil, especialmente quando fizemos downsizing na casa e não temos espaço para co-habitar sem ameaçarmos alguém de porrada ou tropeçar em alguma coisa.

Tive um ano de aprendizagem nesta matéria em 2014. Com o cancro e respetivos tratamentos fofinhos, vi-me muitos dias fechada em casa e aprendi a lidar com os silêncios da casa, nesta caso na minha antiga casa. Ai as saudades da Vista Alegre e da minha horta :(

Sempre gostei de estar com pessoas e ver-me rodeada de amigos. No entanto, durante a quimioterapia, aprendi o quão satisfatório pode ser o silêncio e a solidão. Houve dias em que tive companhia, e da boa, mas muitos em que tive de aprender a viver dentro das paredes da casa e a saber respeitar esses limites.

Era-me dito para me resguardar de pessoas além do necessário, contacto só com a família mais próxima...qualquer constipação ou gripezinha num sistema imunitário debilitado podia dar azo a problemas. Ir ao supermercado só se me sentisse bem fisicamente e nas horas de menos gente...ir de máscara era aconselhável.

Confesso que andava com elas no carro e quando saía, pensava que se entrasse de máscara, ia ser alvo de olhares ainda mais piedosos do que aqueles que a careca e o olhar amarelecido me conferiam.

Entrava, procurava o que queria e saía a correr, quase sem tocar em nada, a fugir das pessoas nos corredores e meia paranóica com o contacto físico.  Neste momento, vejo tanta gente na televisão assim, de máscara na rua, nos transportes e nos locais de trabalho que ninguém daria pela minha máscara nem pela figurinha que devo ter feito algumas vezes.

Estar em casa por vontade própria é fácil, estar por necessidade e/ ou obrigação força-nos a outro mindset. Temos de interiorizar que este é um período da nossa vida que somos obrigados a viver, uma fase que vai passar e que novos dias virão, com a liberdade para ir à praia, dar um volta de bicicleta ou só estar com amigos num final de tarde.

Entretanto, vamos fazendo dentro das nossas paredes tudo o que nos é permitido, porque umas vezes é o cancro, outras vezes a depressão, agora o corona....há imensas coisas que nos podem prender a uma casa. É preciso esperar com calma, paciência e respeito pelo próximo.



Beijinho e fiquem em casa.

vera


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Dores de gente normal

Hoje ao mostrar o blog a uma pessoa, deparei-me com uma ausência prolongada....17 de dezembro foi o último post. E já aconteceu tanta coisa desde então :)

Andei distraída com umas dores de costas que conseguiram colocar a imaginação em altos voos. Uma pessoa normal ponderaria uma queda, mau jeito no desporto, efeito da idade, postura incorreta...está-se mesmo a ver?

Metástases ósseas...claro. No que mais haveria de pensar um sobrevivente oncológico?

É quase como se não tivéssemos direito a dores simples, dores de gente normal. Depois de alguns dias a evitar pensar nas dores, outros tantos a pensar que as inflamações demoram alguns dias a passar, outros em Madrid a tomar anti-inflamatórios na corrida pelos museus, eis que na consulta com o oncologista me queixo e ele, como sempre, ouviu, refletiu e opinou.

Não devendo descurar este tipo de dores minimamente constantes, há que investigar a causa, ou pelo menos, eliminar causas de dor.  Pensamento de oncologista = despistar metástases ósseas. É caso para dizer que o nosso pensamento não anda muito desencontrado.

Fiz uma cintilografia óssea de corpo inteiro na semana passada...aparentemente, no meu belo esqueleto nada indicia "malignidades" e o radiofármaco que me injetaram não foi atraído por nenhumas células, pelo que agora pode ser o que quiser....inflamação, postura, idade....whatever, desde que não seja cancro.


Uma consulta de osteopatia entretanto parece ter ajudado e, mais uma vez, acredito que aliar medicinas/ terapêuticas alternativas com as convencionais só nos trará vantagens. Se alguém me vir mal sentada, inclinada para algum dos lados....relembre-me por favor que fazer uma cintilografia é bem menos agradável do que sentar-se corretamente!!

Beijinhos,
Vera

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Números que gelam

Estatísticas...valem o que valem, mas conseguem gelar-nos uns momentos.

O medo vai sempre acompanhar-nos, saber lidar com o medo é que nos faz continuar a sorrir, a sair da cama, a trabalhar, a viver! Ter noção destas amargas estatísticas ajuda:)

Vejam a reportagem breve da Sic  - "Um terco dos doentes com cancro da mama acaba por voltar a ter a doenca na forma avançada"

Bjinho,
Vera


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Besta de cancro

Hoje uma sms fez-me recuar a 2013 quando descobri que tinha cancro...

Nunca fui de eufemismos. É cancro...não é o malzinho, a doença, o tumor maligno...chamem-no pelo nome. Consta que ele não gosta de afrontas...

Quando nos conseguimos colocar no lugar da pessoa que acabou de receber esse "presente", caímos de volta no mesmo momento, sentimos o aperto e a sensação de medo e do "porquê eu"...e milésimos de segundos depois, estamos a passar energia positiva, a cuidar de dar esperança e a disponibilizar-nos para ouvir, falar ou o que quer que precisem.

Não vale a pena procurar o porquê. Há quem diga que é o destino, o karma, o azar, a genética, entre outros pseudo-culpados.  Importa agora somente o quando e como o vamos atacar, para o ultrapassar. O resto fará parte da história, da nossa história

Bjinho
vera

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Revisão dos 63...

Na minha última revisão de oncologia, depois de toda a simpatia, lá vieram os 63kgs à conversa e a taxa de colesterol bem acima dos valores pseudo-normais. Acho que só grávida tinha atingido os sessentas...e isso desapareceu passado uns meses.

Como a medicação hormonal tem estes efeitos secundários (entre alguns outros ainda mais desagradáveis), lá terei eu de entrar em modo "regime". Vamos evitar a palavra "dieta" que me fere os ouvidos. Até à próxima consulta, em agosto, baixar ambos os valores e as ordens do Dr. Leal são para cumprir, até porque ele sabe bem do que fala.

De resto, exames todos em conformidade e siga para a frente com isto. Em breve atingirei o que muitos consideram ser a 1ª meta - os 5 anos pós-tratamento. Já????

 É relativa esta contagem e há sobreviventes a contar este tempo de maneira diferente, mas considero, no meu caso e para este efeito a data de conclusão do "tratamento choque" - quimioterapia+mastectomia+radioterapia.

Agosto de 2014 foi uma espécie de libertação, até porque literalmente estava a "libertar" cenas queimadas pela radioterapia (humor negroooo).


Assim tem sido o caminho...


1- Quimioterapia neoadjuvante - início a 8-01-2014

4 ciclos de AC + 12 de Herceptin e Paclitaxel

2- Cirurgia - Mastectomia radical modificada a 17-06-2014
3- Radioterapia - 26 sessões, 10 com bólus

Início a 14-07-2014

4- Herceptin (3 em 3 semanas, 1 ano)

De 05-04-2014 a 31-03-2015

5 - Tamoxifeno (interrompido)

De 01-07-2014 a 7-10-2014


6- Zoladex (1 mensal, 5 a 10 anos)

Início a 8-08-2014


7. Aromasin (diário)

Início a 8-10-2014

...e este caminho vai-se fazendo...primeiro os 5, depois os 10 anos e por aí em diante.

Beijinho e coragem a quem está na luta.
Vera

terça-feira, 5 de março de 2019

Falar sobre cancro

Falar sobre cancro...pois!
Falo muito sobre o cancro, seja o meu ou outros. Conheço intimamente o meu e dou uns toques acerca de outros. Muita informação inútil neste cérebro!

Muitas vezes, no momento do diagnóstico, depois de passar aquele primeiro susto, precisamos de ouvir experiências, pessoas reais que saibam entender o medo e o pavor do desconhecido e da incerteza. Tenho falado com algumas pessoas, a maioria provavelmente não devo ter o prazer de conhecer pessoalmente pela distância que nos separa. Mas isso não significa que não seja criado um laço com essas pessoas. São laços virtuais, muitas vezes mais fortes que muito físicos.

Nesta minha aventura, conheço também casos mais próximos, que me fazem pensar na injustiça na distribuição dos cancros. Não sei quem a faz, mas devia repensar seriamente a sua estratégia!

Se com dois dedos de conversa e um chá conseguimos ajudar alguém, se os conseguimos ajudar a tranquilizar, sabe bem. Ficamos a pensar em como podemos ser úteis aos outros, como quando um dia alguém o foi para nós.

Não há nada que garanta que vai correr bem, nem ninguém o pode assegurar, eu muito menos. Mas quando sei que estão a ser tratados, ou vão ser tratados, pela equipa que me segue, fico simplesmente aliviada e feliz pelas pessoas. Os anjos da guarda podem ser partilhados, afinal de contas.

E sei que o Dr. Leal, a Dra. Teresa, a enfermeira Maria José e a Licínia de tudo farão para que te sintas sempre bem enquanto por lá andares, querida L.

Agora vamos a luta!

Bjinho
vera

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Rosnar e sorrir

Tenho andado cansada, demasiado abstraída para sentar e escrever, que tanta falta me faz. Aliado a isso, o meu "Airzinho" morreu há uns dias, daquelas mortes que não tem ressurreição possível.

Vá lá que foi nas mãos do Nuno...se fosse nas minhas, ainda hoje estava a ouvir as piadinhas. Sim, porque "eu" dou cabo das máquinas todas, cá em casa tem sido um "ver-se-te-avias" de cenas avariadas e, segundo consta, eu tenho quota parte nisso. Devo ter um dom...o que me vale é a minha capacidade de abstração (ou de ignorar mesmo).

A abstração e capacidade de ignorar, até um certo ponto, são muito importantes, porque existe tanta coisa, boa ou má, a acontecer à nossa volta, que nos consegue desestabilizar, retirar a paz e o equilíbrio que precisamos para viver, e não só sobreviver.

Vou rosnando, sorrindo e ladrando, por vezes, mas enquanto assim for, é bom sinal. Se eu parar de sorrir no meio do rosnar e ladrar, aí sim, a coisa está preta!

Bjinho.
Vera

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Números que alimentam...

Cada vez que saem artigos relativamente ao cancro de mama inflamatório, lá vou eu passar os olhitos para saber mais e conhecer o que se vai fazendo a nível de investigação, estatísticas e afins. Os números valem o que valem, e os contextos definem os números, mas a verdade é que a taxa de sobrevivência a este tipo de cancro tem vindo a aumentar e as estratégias combinadas de tratamento têm possibilitado uma maior taxa de sobrevivência e qualidade de vida.

Neste estudo em específico, os autores baseiam-se em dados de 14 hospitais do UK e fala-se já aqui em taxas de sobrevivência de 61%, o que é muito bom, tendo em conta a natureza deste bicho!

Alguns dados do estudo:
•IBC cases accounted for 0.4–1.8% of invasive breast cancer cases at these centres.
•Although 86.4% stage III patients received chemotherapy, surgery and radiotherapy, 40.1% developed distant metastases.
•Five-year overall survival (OS) was 61.0% for patients with stage III disease at presentation.


Estou no 4º ano pós-tratamento choque. Estou bem e quero continuar bem. Há esperança, sempre. Temos de nos agarrar a isso, para poder continuar a viver. 

Não consigo entrar em ondas de outubro rosa, mas continuo a divulgar e a falar no meu caso, porque somos poucas, mas somos únicas, como todas as mulheres o são.

No lump, still cancer.

Bjinho
vera

domingo, 10 de junho de 2018

Agulhas e comprimidos

Esta semana ri-me algumas vezes com o espanto de algumas pessoas por causa de uma agulha. É verdade, a agulha do Zoladex impõe algum respeito, para não dizer muito respeito.

A primeira vez que a vi, em agosto de 2014, também me espantou e foi espantando pelos meses adiante, até que nos habituamos e aquela agulha grossa e nojentinha passa a ser uma rotina. Fura, deixa implante, sai e sangra um bocadinho. Põe penso, dá beijinho à enfermeira e vai-te à vida.

Nem todas as pessoas precisam disto após cancro de mama (também é usado em cancro da próstata).

Há 3 proteínas que se avaliam no cancro da mama - recetor de estrogénio, recetor de progesterona e o fator de crescimento epidérmico 2...ou em siglas...ER, PR e HER2 No meu caso,  o meu bichinho era triplo positivo - ER+, PR+ e HER+...o que por um lado pode ser bom, por outro não, como em tudo na vida.

A hormonoterapia que faço atualmente (Zoladex + Aromasin) devem-se a esta "positividade" e a imunoterapia (Herceptin) que fiz durante algum tempo foi específica para o fator HER2+.  Felizmente, vai havendo cada vez mais e melhor medicação dirigida. Será este o futuro e conseguiremos tratar com sucesso muitos cancros que por aí virão.

No entanto, não há bela sem senão e a medicação hormonal vai fazendo das suas, especialmente a nível de ossos. Esta semana fiz mais uma densitometria e continua a ser giro ver a cara das pessoas na clínica...do género..."chamei a Vera Mónica, mas não deve ser para este exame!" À custa disto, osteopenia diagnosticada em certas zonas ...e por isso todos os domingos, um comprimido de ácido alendrónico+colecalciferol, para ajudar à perda de densidade óssea...30 minutos de pé após tomar o comprimido para evitar outros males.

E, no entanto, não deixo de andar feliz por andar por cá!

Não se esqueçam de ir fazendo o auto-exame. Não poderemos prevenir todos, mas alguns podem ser detetados e curados. Marquem no calendário um dia por mês para o fazerem para não se desleixarem e perderem o fio à meada.



De resto, a minha vida tem levado o seu curso natural e há que saber ir na onda e aproveitar o melhor que temos e podemos. Tenho de aproveitar agora o sol (com cuidado) para repor níveis de vit. D, sempre em carência severa,  e CARPE DIEM!

Bjinho,
vera


domingo, 29 de abril de 2018

Os chamados "cagaços"

A minha vida enquanto sobrevivente oncológico recente é vivida com a intensidade possível, com a noção do dever e do poder nas medidas certas, com a certeza que o mais importante da minha vida é a minha família e tudo o que a eles diz respeito.

A minha vida enquanto sobrevivente oncológico recente também tem os chamados "cagaços". Nas últimas 3 semanas comecei a notar algo diferente no peito.... Há 2 semanas, depois daqueles dias a tentar convencer-me que estava a sentir coisas, acabei por ir fazer uma ecografia e uma mamografia. Não vale a pena ignorar o que se consegue apalpar :)

Algo me dizia que não era "mau", mas mesmo assim, fora de normal. O medo que algo volte e nos leve desta vida é forte e será sempre um companheiro a respeitar. Ter medo faz-me viver mais e melhor, faz-me viver as coisas com outra visão. Faz-me sair a horas do trabalho para ir buscar a minha filha à escola, faz-me ter prazer em acompanhá-la nas 1001 atividades, faz-me entender melhor as prioridades no dia-a-dia.

O cagaço tomou a forma de pequenos caroços/ massas, que começaram a surgir nas zonas "trabalhadas" na cirurgia de fevereiro. Realmente, esta cirurgia ainda não tinha dado chatices, a pele aguentou-se bem com novos cortes e as marcas destas últimas lipoaspirações desapareceram depressa. Vieram agora as chatices. Os exames mostraram pequenas bolsas de gordura, tipo quistos, que se formaram nos locais onde se fizeram os enxertos de gordura, que possivelmente contém tecido necrótico....basicamente gordura que não foi devidamente absorvida/integrada e o corpo encapsula-a como medida de defesa. O meu cirurgião plástico deu-me o nome médico para isto, mas já nem consegui absorver essa informação. Chamem-lhe o que quiser, menos cancro!

Vamos agora acompanhar isto, se continuar a crescer, poderá ter de ser "aspirado" ou qualquer coisa que me soou a "ouch", mas quero acreditar que o meu organismo se vai livrar disto. Acho que depois de o cirurgião me ter visto na sexta-feira, isto até começou a "desinchar"...ou isso, ou foi mesmo o cagaço que se começou a desvanecer...

Bjinho,
Vera










sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Quase no fim


O ano de 2017 está quase a terminar. Para mim, em especial, mais um ano significa vida e esperança...de dezembro de 2013 com um diagnóstico de cancro violento a dezembro de 2017 com a vida a correr quase normalmente e a refazer-me das "feridas de guerra".

Parece que começou ainda ontem, mas a verdade é que, dia após dia, a vida corre  e leva o seu rumo, como bem quer e entende. Não nos cabe a nós decidir o seu rumo, apenas vivê-la o melhor que podemos e sabemos.  Conheço muita gente que ainda se julga capaz de a dominar e de decidir o seu rumo, como se de um deus poderoso se tratasse. Não invejo essa gente…um dia aprenderão a viver um dia de cada vez.

Assim espero o meu 2018. Com muita saúde, um dia de cada vez, para todos.


Bjinho e bom 2018

Vera

Ps.- Consulta de rotina correu bem, apesar de estarmos já a ponderar um novo tratamento preventivo para "atrasar" os efeitos secundários da medicação hormonal. É caso para dizer que vou voltar a meter para a veia daqui a uns tempos, mas o que tem de ser, tem muita força :)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Empate

No segundo encontro com as mãos do cirurgião, eu e o hematoma empatámos. Com as dores que tinha sentido na segunda-feira, ia já meia preparada psicologicamente para sair de lá toda torcida.

Eu fiquei torcida, mas o "gajo" não ficou melhor.
Como ainda havia muita "matéria" a eliminar, basicamente tive de ir à "lavagem"...e o meu querido cirurgião cortou, espremeu, injetou água oxigenada, betadine, soro e mais umas tretas, voltou a enxaguar o interior e a espremer e no fim coseu. Tudo muito giro, não fosse feito a "sangue frio".  O enfermeiro dizia-me para não olhar, porque podia desmaiar...deu para eu me rir...como se a visão fosse pior de suportar do que a dor.

Voltei com pontos, que devo retirar em 8-10 dias, e voltei com a mama tapada com penso para evitar infeções.  Segundo o Dr. Conde, este procedimento deve resolver o assunto, ou pelo menos assim esperamos. Amanhã ele vai ver como esta complicaçãozita está a evoluir.

É mesmo isso, uma complicação da cirurgia. Pontos rebentados, sangramento, pele debilitada nesta zona pela radioterapia, falta de gânglios...uma mistura explosiva para o hematoma se formar e perdurar.

Se era escusado? Era, claro, mas nada a fazer, a não ser ajudar o corpo a safar-se de mais esta!

bjinho,
Vera



terça-feira, 21 de março de 2017

Números à sorte....

Um pequeno exercício para o cérebro voltar ao lugar, depois de mais uma anestesia geral.
Números e frases...

1 - Tudo isto por causa de uma mama.
2 - Tudo isto para ter um par.
3 - Não teria gordura corporal para 3, a não ser que aceitasse a oferta de amigos e marido :)
4 - 4 dias de internamento no hospital e não achei demais :(
5 - 5 minutos de brincadeira no bloco operatório antes da dita cuja.
6 - 6 da manhã, hora em que acordei com pontos rebentados.
7 - dia da cirurgia.
8 - 8 dias depois comecei a caminhar sem imitar o Corcunda de Notre Dame.

(...) 

15 - 15 dias pós-cirurgia e já me sento ao computador mais do que 30 minutos, sem ter de me esticar, caminhar ou deitar....

15 - REPETIDO INTENCIONALMENTE - 15 dias sem um banho de gente.

(...)

32  - É o tamanho da cinta que tenho de vestir sempre que quero caminhar, e não é nada fácil de a colocar.


Bjinho,
Vera




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

3 anos pós-início

Ontem foi um dia agitado, com visita à família, viagens, lambidelas do Bek e mais viagens.

Chegada a casa, preparar sopas para a semana, orientar a semana que é sempre muito preenchida. Na minha cabeça, ressoou desde cedo a ideia de que fazia 3 anos que fiz a primeira sessão de quimioterapia e, volta e meia, vinha isso ao pensamento. 3 anos, já?

São datas que estranhamente trazem de volta o medo e a ansiedade que eu levava comigo, a sensação do frio a entrar nas veias e o adormecimento lento após os primeiros minutos. Não se esquece, mas tentamos não nos lembrar disso, até porque é sempre preferível lembrar-mo-nos das coisas boas associadas à quimio...e tenho muitas coisas boas a recordar, que quase apagam da memória o sufoco físico da quimio, a cor amarelada, as olheiras, a falta de cabelo, o cansaço, as dores!

 O carinho, a atenção, as flores, os presentes, os mimos, a companhia, o incentivo, as palavras de amizade e de preocupação...a minha esfera protetora, no fundo. Sim, acredito que tenham ajudado bastante a ultrapassar esta fase, cujo aniversário ontem me fez recuar 3 anos e me fez agradecer, mais uma vez, por estar aqui.

Kit de fim de quimio, oferecido pela grande Sisse :)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

NED

Há dias na vida dos "sobreviventes oncológicos" em que a incerteza, o medo de recidiva paira no ar, talvez por estar a aproximar-se a altura dos exames de rotina trimestrais... e, estranhamente recebemos nesse dia um email de uma norte-americana que, entre outras coisas, diz o seguinte:

"I got my original diagnosis nearly 26 years ago on 14 March 1991 and have been NED ever since"

e pensamos que também merecemos isso, caramba.


Bjinho a todos e menos azedume, porque afinal é quase Natal.


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Chegou o outubro rosa!

Sim, dizem que é o mês rosa, mês da chamada de atenção e afins para o cancro da mama. Um mês que as pessoas que já tiveram cancro de mama sentem de forma mais intensa, mais dolorosa. Para mim, não há outubro rosa, todos os meses são meses rosa. Todos os meses sinto o laço rosa (quase à volta do pescoço).

As marcas físicas estão muito presentes. O cateter ainda está aqui no peito disponível para uso e o processo de "mentalização" para a reconstrução aviva memórias e sentimentos.

E este sentir pode ser tão somente recordar. Recordar que há 2 anos estava esturricada da radioterapia e as cicatrizes estavam tão frescas ainda. Fisicamente estava um trapo, foi muita quimio, cirurgia, radioterapia, imunoterapia e hormonoterapia... tantas terapias que qualquer coisinha me punha cansada e qualquer tentativa de me concentrar em algo útil saía frustrada.

Passados 2 anos, ainda não me sinto a mesma pessoa, aliás nem poderia sentir. O Tico e o Teco sofreram bastante e ainda hoje sinto as sequelas...memória de "Dóri", concentração dificultada, incapacidade de engolir muitos sapos ou guardar rancores mesmo quando me apercebo que me estão a prejudicar...esta se calhar já tinha antes da quimio :)

Quem ouve as palavras "tens cancro", jamais pode voltar a ser a mesma pessoa. E ainda bem...quem consegue sair dele, vive mais desprendido, mais feliz e mais rosa...rosa por todo o lado, mesmo quando o mundo à nossa volta teima em ser mais para o negro, quando as contas se acumulam ou quando vês pessoas boas de coração sempre aflitas e as más sempre na mó de cima.

No fundo, o outubro rosa devia ser uma chamada de atenção, mas com tanta falta de informação que tenho visto, mesmo em pessoas ditas letradas, não sei se 1 mês por ano é suficiente para esta tarefa herculiana.

Ao não esconder, ao partilhar desde o início, vou ajudando a espalhar a palavra, pelo menos relativamente ao cancro inflamatório da mama, desconhecido inclusivamente na comunidade médica. Já tive de explicar a vários profissionais de saúde o que era o cancro inflamatório e já levei respostas do género "oh menina, inflamatórios são todos, porque o cancro envolve inflamação"...E não, não lhe fui às trombas, pacificamente mandei-o ir ao Santo Google. Para quê ensinar quem não quer aprender?

Prevenir é sempre o melhor remédio...vigilância, alimentação, hábitos saudáveis e pouco rancor e azedume nas nossas vidas. O cancro não escolhe idade, sexo, raça, cor de cabelo ou altura...escolhe-te a ti quando quiser, quando lhe apetecer. Se puderes não contribuir para este hóspede indesejado, tanto melhor.

Sejam felizes e larguem os rancores e as amarguras. Tornam-nos ácidos por dentro, literalmente. E imaginem quem adora ambientes ácidos??

Beijinho

Vera


terça-feira, 6 de setembro de 2016

Porta aberta

Abri a porta, ainda sem a certeza absoluta de a querer já abrir. Para a poder abrir totalmente ou fechar, ou pelo menos saber que caminho percorrer, tenho de estar informada, conhecer as estatísticas, rever casos semelhantes, absorver artigos científicos sobre o dito cujo. Aprender para saber ouvir e discutir sobre o assunto. Em breve, consulta da especialidade e segundas opiniões, claro.

Bora lá, que para a frente é o caminho, ainda um bocado a medo, mas indo.


Beijinho,
Vera

sábado, 11 de junho de 2016

Por passos de bebé.


Alertaram-me, esta semana, para o facto de eu não escrever nada no blog há muito tempo e perguntaram-me se estava tudo bem. O blog serve para isso mesmo, para que acompanhem a história, ou mera estória provavelmente.

Tem estado tudo bem comigo e com os da família, com trabalho e serenidade. Há dias de azáfama, dias mais calmos, dias para todos os gostos.

Em breve, chegará um dia que me marcou…nesse dia, faz anos o meu afilhado mais velho, mas foi também o dia da cirurgia. Fará 2 anos que fiz a cirurgia, que mandei para análise uma parte do corpo que já não sentia minha, que eu já não queria e que me podia privar de estar aqui a escrever.

Este mês, depois de bastante ponderação, abri, na minha cabeça, a porta da reconstrução. Depois de luz semi-verde por parte do oncologista, porque apenas em setembro se completam 2 anos após radioterapia, começamos a pensar nesse processo. Uma primeira consulta de cirurgia já me pôs a pensar nas hipóteses, trouxe os papéis para os exames necessários, vi e ouvi o que a minha cirugiã me disse, mas ainda não quero a consulta com o cirurgião plástico (passo 2).

Porquê adiar o segundo passo? Por tudo e mais alguma coisa…porque ainda não completei 2 anos após fim de tratamentos choque, porque tenho pavor a estar outra vez dias e dias sem tomar banho no verão, porque tenho medo, porque vai doer, porque ainda não sei que decisões vou tomar a nível de profilaxia, porque vai doer (repetido intencionalmente)...mas acima de tudo, porque a minha filha entra na escola primária em setembro. É um passo importante na vida dela, um marco de vida em que eu quero estar presente e quero que ela tenha uma mãe minimamente activa nessa altura. Quando for operada, provavelmente tenho de voltar a recorrer à minha mãe para assistência ao domicílio e ao Nuno para motorista privado e, diga-se de passagem, nunca gostei muito de estar dependente.

Depois disso, depois de ultrapassadas as outras questões e depois de eu própria saber o que pretendo com este passo, aí sim, vamos lá plastificar.  Até lá, estou bem, feliz e a viver os dias com alegria. Continuo assim, como sou e como o cancro me deixou. Mas acreditem, eu deixei-o bem pior :)

Beijinho
Vera

Ps. Que finalista de pré-escolar linda que eu tenho:)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Catrapumbas

Há dias em que a mais pequena coisa nos consegue chatear e carregar o nosso corpo de stress oxidativo e energias negativas. Todos temos esses dias em que sentimos a fatalidade das coisas. Caímos, levantamo-nos e vamo-nos equilibrando, tentando não cair e não tropeçar. Mas a vida é mesmo feita disso e catrapumbas... lá estamos nós num rodopio novamente. Ora estamos bem, ora mal, ora remediados. Há uns melhor, uns pior e outros na mesma mó. E depois há os que julgam ter, os que julgam poder, os que julgam controlar a vida. Que vã ilusão.

Tenho-me deparado com tantos casos de cancro à minha volta em pessoas que não fazem mal a uma mosca. E depois vejo pessoas más, ruins a quem nada acontece e vivem felizes com o mal-estar alheio....ah injustiça. Houvesse alguma forma de mandar e era nesses em quem recairiam as doenças e as coisas más desta vida, e não em crianças pequenas ou noutros seres inofensivos.

Vou colocar o meu azedume de hoje na cama...pode ser falta de descanso.
Bjinho
vera