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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Renovação de passe

Quase 1 ano depois, hoje lembrei-me de escrever. Sem obrigação, só mesmo por vontade.

Hoje foi dia de consulta de oncologia. A cada 6 meses, tenho de ir fazer a renovação do "passe" ao meu querido oncologista. Apesar de ficar sempre com um nervoso miudinho e insónias nesta semana,  já não estranho exames, picadas e veste e despe...vamo-nos habituando a uma rotina que nos é imposta e que, no fundo, nos sabe bem seguir.

Há quem não valorize rotinas. Eu valorizo e gosto. Significam que nada me tirou dela! 

Tudo normal nos exames já feitos, mais quisto, menos quisto. Tenho de fazer mais um exame entretanto, mais por descargo de consciência e porque havendo antecedentes, há exames que a regra manda antecipar. E o meu querido oncologista, do alto da sua idade, já viu muita coisa estranha...portanto há que cuidar, antecipar e vigiar.

A vida tem seguido o seu ritmo, mais acelerado nos últimos tempos, mas com objetivo de equilíbrio a médio e longo prazo. Há alturas em que não se aceitam desafios e nos últimos anos sempre achei que a rotina profissional era de manter. Miúda pequena, corpo a recuperar, construção de casa, etc.! 

Aceitei um novo desafio em maio e aceitei sair da minha rotina por algum tempo. Reconheço e aceito o "algum tempo".  No fundo, aceitar um convite para um projeto limitado no tempo é saber aceitar a efemeridade. E isso, o cancro ensinou-me muito bem. 

De igual modo, ensinou-me a relativizar. Ensinou-me a ligar o "descomplicómetro". Ensinou-me que é preciso saber ignorar certas coisas para ser feliz e estar em paz. É preciso entender que não preciso de ser a melhor, apenas dar o meu melhor. Exatamente o que digo à Rita no basquetebol. 

Apesar de tudo, tenho a sensação que não tenho conseguido aplicar estes ensinamentos tão bem quanto gostaria. Talvez tenha de passar mais tempo na horta a falar com os legumes e a observar o pomar.  Interagem todas as espécies de legumes, árvores, flores e ervas daninhas...um ecossistema tão completo, tão alinhado e tão diferente.

É tão simples e descomplicada a horta!

Já só me faltam uns 25 anos para me poder dedicar à horta e ao pomar.
Estou quase lá e conto ter vários "passes" renovados até lá.

beijo,

vera

Ps. Sr. Miguel, meu sobrinho, a tua tia/madrinha afinal está velha e lamechas:) 
Vou atualizar a foto do site! 

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Dia dos amigos

São cada vez menos à medida que a idade aumenta, mas cada vez mais nossos amigos.

Dos que pertencem ao círculo.
Dos que se preocupam connosco.
Dos que estão a nosso lado sem interesse.
Dos que gostam de nós a sério.
Dos que nos reconhecem os defeitos e mesmo assim permanecem.
Dos que não fogem perante uma doença.
Dos que não nos usam para atingir objetivos pessoais.
Dos que encontramos passado 10 ou 20 anos e é como se tivesse sido ontem o último jantar juntos.
Dos que nos puxam para sermos melhores pessoas.

Começam a ser poucos.
Mas o cancro também ensina que não precisam de ser muitos.

Só têm de ser e estar neste jogo de equilíbrios.

 Nenhuma descrição de foto disponível.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Dia da Luta, os 44 e o fim do rosinha!

Já passou mais de 1 ano desde a última entrada no blog. Ainda um destes dias dizia à Rita que o facto de escrever durante o cancro tinha ajudado a manter a sanidade mental durante o annus horribilis. Na verdade, tem ajudado ao longo dos anos e, de vez em quando, volto cá para reler certas entradas e pensar... "f******, se aguentaste isto, não há-de ser este ou aquilo que te deita abaixo!"

Hoje, no Dia Mundial da Luta contra o Cancro fui à consulta semestral de oncologia, ver o meu querido Dr. Leal. Há 11 anos a ser recebida pelo carinho constante e cuidado deste médico que se tornou, para muita gente conhecida, um amigo. Encontrei hoje 2 pessoas conhecidas lá...é um lugar comum, cada vez mais um lugar comum e estranhamente, continua a ser casa.

Marcamos hoje o fim de uma relação de alguns anos...eu e o tamoxifeno estávamos juntos desde 2019 e cortamos hoje laços.  Fiz hormonoterapia desde 2014 e tenho sentido no corpo os seus efeitos.

Vendo frescura, é claro, mas daquela frescura que faz estalar os ossos e articulações...que causou osteopenia e mais uma série de efeitos secundários "fófinhos".  Segundo os especialistas cá de casa, o mais sentido foram as alterações de humor...calúnias, na prática.


Deixar a medicação é uma sensação mista...uma espécie de agridoce achinesado.
Sabemos que o comprimido rosa contribuiu para reduzir taxas de recidiva, aumentou a sobrevida de mulheres sobreviventes de cancro de mama e contribuiu para que a esperança ganhasse lugar em muitas casas. É uma esperança rosa, pequenina.

Por um lado, quero parar de tomar medicação, mas por outro lado, há ali uma sensação de proteção que parece que se desvanece.Uns dias de habituação e a vida segue o seu rumo. Dizem  que as hormonas positivas também protegem. 

Pois bem, com 44 anos feitos, eis que posso colocar uma data de fim no tratamento previsto em janeiro de 2014, há muitos anos atrás e que me pareceram um futuro muito distante e, às vezes, impossível.

É possível percorrer a jornada. Uns dias melhores, outros piores, porque nem tudo é rosinha, como o tamoxifeno. Importa continuar.

A quem começa, eis o meu percurso. Registem tudo. Somos o nosso melhor médico e temos de saber tudo o que diz respeito à nossa saúde.

1- Quimioterapia neoadjuvante - início a 8-01-2014, com 4 ciclos de AC + 12 de Herceptin e Paclitaxel
2- Cirurgia -  Mastectomia radical modificada a 17-06-2014
3- Radioterapia - Início a 14-07-2014, 26 sessões, sendo 10 com bólus
4- Herceptin - de 3 em 3 semanas, de  05-04-2014 a 31-03-2015
5 - Tamoxifeno - interrompido numa primeira relação, de 01-07-2014 a 7-10-2014
6- Zoladex - 1 mensal, durante 5 anos, de 8-08-2014 a 24-08-2019
7. Aromasin - diário, de 8-10-2014 a 30-09-2019
8. Tamoxifeno - retoma da relação a 01-10-2019 e fim a 04-02-2025


Abraço,

Vera


terça-feira, 28 de novembro de 2023

43

Na semana passada celebrei 43 anos de vida, desta feita com outras situações de vida familiar a mostrar-nos que o nosso maior bem é mesmo a saúde. Ainda há pessoas que não o entendem, mas lá chegarão. Com os seus altos e baixos, a vida tem me mostrado que i) somos pouco "donos disto tudo" , ii) nada acontece por acaso e iii) o que hoje é certo, amanhã pode não ser. Coisas práticas, na verdade.

Desde há 10 anos, desde o diagnóstico e desde esse annus horribilis, que tenho tentado ser mais prática e mais desligada de certas coisas. Se resulta sempre, a 100%, não, não resulta. Se ajuda em muitas situações do dia-a-dia, lá isso ajuda. O sentido prático também tem impacto no dia-a-dia e no círculo de amigos que temos. Algumas pessoas entram, outras saem da nossa vida. A umas até deixamos entrar no círculo, a outras barramos o acesso. Podemos até ser rotulados de antipáticos ou snobs. No fundo, acho que é só proteção da sanidade mental.

Não sei se já é da idade, mas confesso que perdi um bocado a paciência para certas pessoas, especialmente as que querem ser importantes à custa de tudo e de todos ou as que deliberadamente prejudicam outras, adultas ou crianças, só para seu belo prazer. Anda para aí uma falta de valores morais que até custa ver! Não lhes desejo mal, só distância, quando possível (ou como diria uma amiga nossa, um pessegueiro a nascer num certo sítio do corpo)!

O dia teve os seus momentos bonitos, como todos. Acordar cedo, levar a Rita à escola, cortar o cabelo com a minha Joaninha e um almoço a 3 com charmoso e filhota. 

No final do dia, os parabéns com família e um ramo de flores lindíssimo de uma guerreira com caracóis espampanantes!  Obrigada M. pelo carinho. Sabes que não é preciso nada e estarei sempre aqui. Estás no círculo.

 
Um muito obrigada a quem ligou, a quem mandou sms, a quem enviou mensagem pelas redes sociais.

Por muitos mais anos convosco, com saúde para todos.

Beijinho

Ps. Em relação ao cancro, aquele que motivou a criação deste blog, estou a entrar no 10º ano pós-diagnóstico, ainda em hormonoterapia, com ossos a dar sinais que já estão fartos do comprimido rosa, mas até aos 99 vão ter de suportar este corpito :)

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Tempo que passa

A última entrada no blog é de fevereiro 2022 e muitas foram as vezes em que me lembrei de escrever no blog e vai passando. Não é que não faça falta, porque faz. É porque o tempo passa, a construção da casa exigiu mais de nós do que esperaríamos, a Rita e sua agenda são prioritárias...a vida, na prática e simplicidade do dia a dia, é prioritária.

Tenho sempre tentado ajudar, como posso, por outras vias. Basta ouvir, basta trocar umas mensagens e mostrar a quem está na luta que estamos cá uns para os outros. Que é preciso arrebitar e olhar em frente, Que o cancro não gosta de pessoas felizes. Que o cancro não gosta de abraços, como um dia escrevi a uma menina que me queria dar um abraço quando soube do meu diagnóstico.

 Hoje, pelos EUA, a Terry relembra a história da Lori e de como tudo começou nesta luta que é a de divulgar o cancro inflamatório da mama.

Importa saber, conhecer e identificar atempadamente, seja neste ou noutro tipo de cancro.

Because of her...
https://theibcnetwork.org/because-of-her/

 


 

P.S. Continuo com o tamoxifeno...a entrar no 10º ano de tratamento. Eu e o comprimido rosa temo-nos dado bem, apesar dos efeitos nos ossos e afins.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Ensinamentos

Deixei passar a meia noite e estava a pensar no dia mundial do cancro. É um dia em que me faz pensar na sorte que tenho por estar viva, por ter respondido ao tratamento, por ter conseguido encarar a mastectomia como um passo para estar viva, por ter tido sempre amigos e família por perto, por estar a ver a Rita a crescer (socorro nesta parte).

Sei que no meio de tudo o que aconteceu, no meio da gravidade da situação e da incerteza que ia crescendo, o cancro também me ensinou algumas coisas. 

Ensinou-me a desprender, ensinou-me a distinguir e a selecionar as lutas que quero travar. Ensinou-me a ser resiliente, mas também a refilar mais e a expressar a minha opinião. 

 Ainda hoje comentava com duas colegas que refilo e bufo de vez em quando. Deixei de conseguir engolir sapos ou comer catos. E quando não quero sequer refilar, afasto-me...que melhor do que termos a firmeza de saber ignorar e avançar quando sabemos o que é importante e temos as nossas fronteiras bem definidas.

O cancro tirou-me muito aos 33 anos, mas também ensinou. E não só a mim, a todos à minha volta que foram afetados também.

Cuidem da vossa saúde, alimentem-se bem e façam sempre exames de vigilância. Este foi um legado do cancro...chatear a malta! 

Beijinho & Keep it Simple!

Vera

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Tensão q.b.

Uma ida ao cirurgião plástico é um momento de tensão.

Tensão q.b., entenda-se,  porque as preocupações não são estéticas no meu caso. Há uns quilos a mais, estupidamente concentrados em alguns sítios, mas convivo bem com eles. Esta tensão vai depois desvanecendo ao longo do dia e chega-se ao fim do dia com a sensação de ter ido ao Porto a pé.

Passados 3 anos voltei ao sítio onde senti mais dores na vida...e voltei com um sorriso nas trombas. É preciso ser parva e esquecer que houve momentos em que me apetecia bater em alguém!

Com o covid, fui adiando a consulta de seguimento, mas devemos começar o ano a limpar assuntos pendentes e esse era um deles.

Uns quistos derivados do "lipofilling" precisavam do olhar clínico. Assim que o tiveram, ficaram felizes por saber que não os vamos incomodar nem com aspirações nem com cirurgias. É mesmo para deixar o organismo tratar disso, com o tempo que precisam, com a calma que exigem e com a descontração de quem já olha para os quistos com ar de "Achas que me incomodas depois de tudo o que já vivemos?"

Keep it simple!

Beijinho.





quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Obrigada!

Tenho muito pelo que agradecer. 

Tenho muito a quem agradecer. 

Obrigada pelas dezenas de mensagens e manifestações de carinho por mais um aniversário! 

Agradeço de coração. Fazer anos não é mais do que completar  um ciclo, continuar a vencer as contrariedades, admitir as derrotas, saborear as vitórias e seguir em frente. A perspetiva é simples, como tudo devia ser. Simples como os cabelos brancos que vão surgindo!

O ano passou a correr. Uma entrada apenas no blog, num ano em que o COVID nos continuou a condicionar os movimentos e a escrita, pelos vistos. Tem sido um ano rico em leituras, em obras e na horta.

Escrever menos no blog significa igualmente um maior distanciamento do cancro, aquela coragem ousada de quem diz "já passou" ou "está quase", ainda que persista alguma dor e ainda me arrepie de cima a baixo sempre que o cheiro dos restaurantes H3 me chega ao nariz (nunca comam hambúrguer depois de quimioterapia).  Exames semestrais têm mantido o foco no futuro, o foco na esperança e na vontade de fazer os 80 anos, pelo menos. 

Ainda hoje comentava no café, com duas moças simpáticas, que as perspetivas de vida mudam após certas coisas na nossa vida. Não é só conversa. São as prioridades que se redefinem quando a linha fica torta debaixo dos pés.

Gostava que algumas pessoas conseguissem mudar perspetiva sem ter de sentir o tapete a fugir debaixo dos pés...talvez assim conseguíssemos ser mais amigos, mais tolerantes, mais solidários...na prática, mais pessoas!

Um abraço, cuidem-se e sempre alerta a sintomas. Prevenir não custa e remediar sai-nos sempre mais caro em todos os sentidos.

vera



quarta-feira, 7 de julho de 2021

Dias e meses...

Já me é difícil calcular mentalmente o número de dias em que estive ausente do blog. Não posso culpar a quimioterapia, porque muita gente não entende o conceito do chemo brain e olha para mim com aquele ar de condescendência, como quem diz "Olha a parva. Já terminou a quimio há 6 anos e ainda usa isso como desculpa!".

Usemos, pois, os meses....muito mais fáceis de contar. Desde outubro ausente da blogoesfera. Confinamentos, nova mudança de casa, malas, caixas, trabalho, projetos e projetinhos...alguma coisa tem de ficar para trás, e por norma sou eu...o exercício físico....os livros...e o blog, entre tantas outras coisas.

Aprendi a olhar para o que se não se pode fazer como pacífico e aceitável. Aprendi que o que não tem remédio, remediado está e assim não sofro (tanto) por não fazer tudo o que gostava de fazer. Aprendi que se deve valorizar os pequenos momentos no sofá, o andar sozinha na horta com a  companhia das abelhas (e toupeiras), o ficar sentada no carro com um livro enquanto a criança treina.

Coisas pequenas, claro. Coisas que podem parecer parvas a muita gente. Coisas que para muitos são luxos...mas daqueles luxos que todos podemos ter se assim o quisermos e se assim orientarmos a nossa vida.

Cada vez mais sinto que o maior luxo é mesmo termos saúde, ignorando o cliché. Hoje foi dia de exames de rotina, com a sempre simpática Dra. Isonda. Para a semana, há consulta de oncologia, por isso convém ver se este belo organismo está em bom estado para a revisão com o Dr. Leal. Estar no vestiário antes de exames é um alerta para tudo o que de bom há cá fora.  O cancro tirou-me a "leviandade" com que se fazia os exames médicos antes dele surgir na minha vida e duvido que me devolva essa sensação algum dia. 

Hoje também era o Research Summit na universidade e eu tive de andar em jejum até às 11 e tal...o que vale é que as máscaras disfarçam o mau humor e o meu ar esfomeado. Tive de dividir a ansiedade pelos exames e pelo evento...e achar o ponto de equilíbrio. 

Deixo-vos a imagem de um quadro que comprei recentemente e que traduz o estado de espírito desta jovem quarentona.


Beijinhos e façam exames de prevenção.
Não custa nada prevenir. Custa bem mais depois.

Vera 






terça-feira, 6 de outubro de 2020

O bendito outubro rosa.

Chegou o outubro rosa. 

Toda a gente pode falar de mamas, postar laços cor de rosa e fotos de mamas por todo o lado e não há condenação social. 

Nunca vi o outubro como rosa, nem gosto particularmente que se comemorem coisas que deviam estar enraizadas na nossa mente e nos nossos hábitos. Prevenir durante os 12 meses. O outubro é só rosa, nada mais.

Não há preferências, não há maneira de nos excluirmos da prevenção, só porque não temos ninguém na família com cancro. É uma ilusão tão grande, mas ainda paira na cabeça de muita gente. Depois chega o susto, porque achamos que só acontece aos outros.

Devemos ter medo q.b., mas aquele medo que nos faz ter atenção com os sinais, que nos faz ouvir o nosso corpo e nos faz seguir os protocolos de exames de rotina. Não o medo da vida...seja ela rosa, amarela ou às pintinhas.


Em 2014, peguei num texto que enumerava os fatores de risco para ter cancro de mama e analisei à luz da minha experiência. Já lá vão alguns anos, felizmente, mas copio abaixo o texto. Vale a pena recordar tanta coisa que não encaixava no "perfil".

Enjoy it :)

Vera

"Analisando os fatores e a minha situação em concreto:

  • Idade: a possibilidade de ter cancro da mama aumenta com o aumento da idade.
    Eu tinha 33 no momento de diagnóstico.

  • História pessoal de cancro da mama: uma mulher que já tenha tido cancro da mama (numa mama), tem maior risco de ter a doença na outra mama.
    Nops...

  • História familiar: o risco de uma mulher ter cancro da mama está aumentado se houver história familiar de cancro da mama.
    Apenas uma tia do meu pai teve e já não era jovem. Ainda cá está para contar a história dela.

  • Algumas alterações da mama: algumas mulheres apresentam células mamárias que parecem anormais.
    Fazia ecografias mamárias de 6 em 6 meses. Sempre tudo normal.
     
  • Alterações genéticas: alterações em certos genes (BRCA1, BRCA2, entre outros) aumentam o risco de cancro da mama.
    Fiz esta análise já durante o tratamento e deu negativo felizmente.

  • Primeira gravidez depois dos 31 anos.
    Nops...antes dos 30 e amamentei a Rita durante +- 1 ano.

  • História menstrual: mulheres que tiveram a primeira menstruação em idade precoce (antes dos 12 anos de idade), ou uma menopausa tardia (após os 55 anos) ou que nunca tiveram filhos.
    Fui normal neste aspeto, pelo menos na parte da primeira menstruação. A menopausa não deve ser tardia :(

  • Terapêutica hormonal de substituição: mulheres que tomam terapêutica hormonal para a menopausa, durante 5 ou mais anos após a menopausa.
    Ainda não lá tinha chegado, mas agora já faço hormonoterapia.

  • Raça: o cancro da mama ocorre com maior frequência em mulheres Caucasianas (brancas), comparativamente a mulheres Latinas, Asiáticas ou Afro-Americanas.
    Yep...I'm white.

  • Radioterapia na região peitoral: mulheres que tenham feito radioterapia na região peitoral, incluindo as mamas, antes dos 30 anos, apresentam um risco aumentado para cancro da mama.
    Fiz agora, mas para combater o bicho.

  • Densidade da mama: mulheres com idade mais avançada que apresentam, essencialmente, tecido denso (não gordo) numa mamografia (raio-X da mama), têm risco aumentado para cancro da mama.
    Sempre tive o tecido mamário muito denso, daí as ecografias periódicas que o meu ginecologista sempre me aconselhou.

  • Obesidade depois da menopausa: mulheres obesas, após a menopausa, apresentam um risco aumentado de desenvolver cancro da mama.
    Mais uma vez, ainda não tinha chegado lá, nem me deram a oportunidade de engordar :)

  • Inactividade física: mulheres que são fisicamente inactivas, durante a sua vida, parecem ter um risco aumentado para cancro da mama; estar fisicamente activa pode ajudar a diminuir este risco, através da prevenção do aumento de peso e da obesidade.
    É estúpido, mas eu e o meu charmoso tínhamos entrado para o ginásio poucos meses antes do diagnóstico. Não considero, no entanto, que estivesse fisicamente inativa, até porque com uma pestinha de 3 anos, seria difícil ser inativa cá em casa!

  • Bebidas alcoólicas: alguns estudos sugerem haver relação entre a maior ingestão de bebidas alcoólicas e o risco aumentado de ter cancro da mama.
    A minha boa disposição (quase sempre) não depende do álcool. Beber um copo de vinho ou uma cerveja de vez em quando chega-me. "

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

52 Gy

Quando somos diagnosticados com um cancro raro (em que há pouca informação) e somos curiosos, andamos sempre nisto...pode até nem parecer saudável aos olhos de muita gente, mas é vida! Cada um gere as suas ansiedades e expetativas como bem entende.


O caráter raro dificulta o investimento em investigação acerca do cancro inflamatório da mama, mas vai havendo alguma, especialmente nos EUA e há alguns artigos que vão positivamente contrariando as estatísticas e os prognósticos reservados que são associados a este bichinho.

Saiu recentemente mais um artigo acerca da radioterapia pós-mastectomia no tratamento deste tipo de cancro (ver aqui). Felizmente, após o começo conturbado no primeiro hospital, tive a benção de cair nas mãos de um super-médico, que estava a par das recomendações  mais recentes para o tratar.

Hoje ao preparar o meu super dossier médico para uma junta médica, deparei-me com as notas e o relatório final da radioterapia. As minhas 26 sessões de radioterapia diária foram intensas, mas vividas com a calma possível, aquela que está intimamente ligada com o "tem de ser".

52 Gy (gray), em frações de 2 Gy, 5 vezes por semana, 26 dias. Segundo o relatório, eu apresentava um "eritema acentuado na parede torácica" no fim das sessões. Segundo a minha memória, era churrasco mesmo e nada agradável, mas nestas lutas, servem todas as armas e algumas são insubstituíveis.


Bjinho,
vera

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Dores de gente normal

Hoje ao mostrar o blog a uma pessoa, deparei-me com uma ausência prolongada....17 de dezembro foi o último post. E já aconteceu tanta coisa desde então :)

Andei distraída com umas dores de costas que conseguiram colocar a imaginação em altos voos. Uma pessoa normal ponderaria uma queda, mau jeito no desporto, efeito da idade, postura incorreta...está-se mesmo a ver?

Metástases ósseas...claro. No que mais haveria de pensar um sobrevivente oncológico?

É quase como se não tivéssemos direito a dores simples, dores de gente normal. Depois de alguns dias a evitar pensar nas dores, outros tantos a pensar que as inflamações demoram alguns dias a passar, outros em Madrid a tomar anti-inflamatórios na corrida pelos museus, eis que na consulta com o oncologista me queixo e ele, como sempre, ouviu, refletiu e opinou.

Não devendo descurar este tipo de dores minimamente constantes, há que investigar a causa, ou pelo menos, eliminar causas de dor.  Pensamento de oncologista = despistar metástases ósseas. É caso para dizer que o nosso pensamento não anda muito desencontrado.

Fiz uma cintilografia óssea de corpo inteiro na semana passada...aparentemente, no meu belo esqueleto nada indicia "malignidades" e o radiofármaco que me injetaram não foi atraído por nenhumas células, pelo que agora pode ser o que quiser....inflamação, postura, idade....whatever, desde que não seja cancro.


Uma consulta de osteopatia entretanto parece ter ajudado e, mais uma vez, acredito que aliar medicinas/ terapêuticas alternativas com as convencionais só nos trará vantagens. Se alguém me vir mal sentada, inclinada para algum dos lados....relembre-me por favor que fazer uma cintilografia é bem menos agradável do que sentar-se corretamente!!

Beijinhos,
Vera

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Besta de cancro

Hoje uma sms fez-me recuar a 2013 quando descobri que tinha cancro...

Nunca fui de eufemismos. É cancro...não é o malzinho, a doença, o tumor maligno...chamem-no pelo nome. Consta que ele não gosta de afrontas...

Quando nos conseguimos colocar no lugar da pessoa que acabou de receber esse "presente", caímos de volta no mesmo momento, sentimos o aperto e a sensação de medo e do "porquê eu"...e milésimos de segundos depois, estamos a passar energia positiva, a cuidar de dar esperança e a disponibilizar-nos para ouvir, falar ou o que quer que precisem.

Não vale a pena procurar o porquê. Há quem diga que é o destino, o karma, o azar, a genética, entre outros pseudo-culpados.  Importa agora somente o quando e como o vamos atacar, para o ultrapassar. O resto fará parte da história, da nossa história

Bjinho
vera

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Os primeiros 5!

Não sou uma pessoa ambiciosa, não almejo cargos importantes no trabalho, não quero ser rica a ponto de não saber quanto dinheiro tenho e não quero ter carros xptos...'keep it simple', costuma ser o lema. O cancro poderá ter contribuído, em parte, para esta postura, mas acho que muito já era meu.

Esta semana, pequenas vitórias que me valeram uma taça!


5 anos após fim dos tratamentos-choque, 5 anos de medicação e de exames constantes, 5 anos de efeitos secundários muitas vezes camuflados pela minha postura e "bom ar".

 Não vou deixar a hormonoterapia, que no meu caso é recomendada por 10 anos. Vamos alterar. Vou deixar de tomar as benditas injeções Zoladex, vou deixar o Aromasin daqui a 1 mês, vou parar o ácido alendrónico em breve e voltar ao tamoxifeno por mais 5 anos. No fundo, a partir de agora, só o tamoxifeno, o cálcio e a vit D...

Deixar de sentir aquela agulha linda todos os meses não vai deixar saudades. Acho que vou sentir saudades das minhas queridas enfermeiras Andreia e Isabel, que ao longo destes 5 anos sofreram um bocadinho comigo e que foram vivendo comigo as pequenas vitórias e partilhando muito mais do que apenas aquele momento para a injeção no centro de saúde de Ílhavo.

O meu querido Dr. Leal ficou tão feliz quanto eu. 

São mudanças positivas na medicação, na esperança de sobrevida e na qualidade de vida.

Keep it simple.
Vera


segunda-feira, 20 de maio de 2019

Revisão dos 63...

Na minha última revisão de oncologia, depois de toda a simpatia, lá vieram os 63kgs à conversa e a taxa de colesterol bem acima dos valores pseudo-normais. Acho que só grávida tinha atingido os sessentas...e isso desapareceu passado uns meses.

Como a medicação hormonal tem estes efeitos secundários (entre alguns outros ainda mais desagradáveis), lá terei eu de entrar em modo "regime". Vamos evitar a palavra "dieta" que me fere os ouvidos. Até à próxima consulta, em agosto, baixar ambos os valores e as ordens do Dr. Leal são para cumprir, até porque ele sabe bem do que fala.

De resto, exames todos em conformidade e siga para a frente com isto. Em breve atingirei o que muitos consideram ser a 1ª meta - os 5 anos pós-tratamento. Já????

 É relativa esta contagem e há sobreviventes a contar este tempo de maneira diferente, mas considero, no meu caso e para este efeito a data de conclusão do "tratamento choque" - quimioterapia+mastectomia+radioterapia.

Agosto de 2014 foi uma espécie de libertação, até porque literalmente estava a "libertar" cenas queimadas pela radioterapia (humor negroooo).


Assim tem sido o caminho...


1- Quimioterapia neoadjuvante - início a 8-01-2014

4 ciclos de AC + 12 de Herceptin e Paclitaxel

2- Cirurgia - Mastectomia radical modificada a 17-06-2014
3- Radioterapia - 26 sessões, 10 com bólus

Início a 14-07-2014

4- Herceptin (3 em 3 semanas, 1 ano)

De 05-04-2014 a 31-03-2015

5 - Tamoxifeno (interrompido)

De 01-07-2014 a 7-10-2014


6- Zoladex (1 mensal, 5 a 10 anos)

Início a 8-08-2014


7. Aromasin (diário)

Início a 8-10-2014

...e este caminho vai-se fazendo...primeiro os 5, depois os 10 anos e por aí em diante.

Beijinho e coragem a quem está na luta.
Vera

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Obras e tatuagens

A paciência que temos de ter em processos de reconstrução diz muito sobre nós e sobre os cabelos brancos que vamos ganhando ao longo do tempo. Passou mais de 1 ano desde a última cirurgia, que fiz em fevereiro de 2018. Só hoje fui completar o próximo passo desta "Obra de Santa Engrácia".

Acredito que a pressa é inimiga da perfeição, por isso dar tempo ao corpo para recuperar e cicatrizar bem é o ideal para o corpo, mas nem sempre para a mente.

Passo nr. 4 da obra concluído, tatuagem feita e a precisar agora de algum tempo para cicatrização e normalização da pele. Ainda ficam a faltar uns retoques no estuque, mas Roma não se fez num dia. So far, so good!



Obrigada Orfeu, não só pela tatuagem, mas pelo carinho e à vontade que me fez pensar voltar aí um dia para esconder a entrada extra que me abriram para a quimioterapia. Para se ser um bom profissional, também é preciso ser um bom ser humano e esses, felizmente, vou encontrando ao longo desta minha jornada.

Bjinho,
vera


segunda-feira, 25 de março de 2019

A proximidade que importa

Hoje fui à farmácia comprar a minha medicação e saí de lá com um sorriso nas trombas, mesmo depois de ver a conta.

A farmacêutica perguntou se estava tudo a correr bem e disse-me, com um sorriso, que eu já devia estar quase a chegar ao 5º ano pós-cancro. Associou-me, desde o início do cancro, à idade do filho e por isso sabia que já lá iam mais de 4 anos de tratamento hormonal.

Foi bom sentir esse carinho de alguém com quem me cruzo apenas 1x por mês. Andamos sempre a correr de um lado para o outro e perdemos tão pouco tempo a mimar e a cuidar.

Entretanto, no meio das correrias, deixei prescrever a receita para a vitamina D...agora vou mesmo ter de tostar à hora de almoço um bocadinho, todos os dias, senão não consigo sair do "défice".




terça-feira, 5 de março de 2019

Falar sobre cancro

Falar sobre cancro...pois!
Falo muito sobre o cancro, seja o meu ou outros. Conheço intimamente o meu e dou uns toques acerca de outros. Muita informação inútil neste cérebro!

Muitas vezes, no momento do diagnóstico, depois de passar aquele primeiro susto, precisamos de ouvir experiências, pessoas reais que saibam entender o medo e o pavor do desconhecido e da incerteza. Tenho falado com algumas pessoas, a maioria provavelmente não devo ter o prazer de conhecer pessoalmente pela distância que nos separa. Mas isso não significa que não seja criado um laço com essas pessoas. São laços virtuais, muitas vezes mais fortes que muito físicos.

Nesta minha aventura, conheço também casos mais próximos, que me fazem pensar na injustiça na distribuição dos cancros. Não sei quem a faz, mas devia repensar seriamente a sua estratégia!

Se com dois dedos de conversa e um chá conseguimos ajudar alguém, se os conseguimos ajudar a tranquilizar, sabe bem. Ficamos a pensar em como podemos ser úteis aos outros, como quando um dia alguém o foi para nós.

Não há nada que garanta que vai correr bem, nem ninguém o pode assegurar, eu muito menos. Mas quando sei que estão a ser tratados, ou vão ser tratados, pela equipa que me segue, fico simplesmente aliviada e feliz pelas pessoas. Os anjos da guarda podem ser partilhados, afinal de contas.

E sei que o Dr. Leal, a Dra. Teresa, a enfermeira Maria José e a Licínia de tudo farão para que te sintas sempre bem enquanto por lá andares, querida L.

Agora vamos a luta!

Bjinho
vera

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Rosnar e sorrir

Tenho andado cansada, demasiado abstraída para sentar e escrever, que tanta falta me faz. Aliado a isso, o meu "Airzinho" morreu há uns dias, daquelas mortes que não tem ressurreição possível.

Vá lá que foi nas mãos do Nuno...se fosse nas minhas, ainda hoje estava a ouvir as piadinhas. Sim, porque "eu" dou cabo das máquinas todas, cá em casa tem sido um "ver-se-te-avias" de cenas avariadas e, segundo consta, eu tenho quota parte nisso. Devo ter um dom...o que me vale é a minha capacidade de abstração (ou de ignorar mesmo).

A abstração e capacidade de ignorar, até um certo ponto, são muito importantes, porque existe tanta coisa, boa ou má, a acontecer à nossa volta, que nos consegue desestabilizar, retirar a paz e o equilíbrio que precisamos para viver, e não só sobreviver.

Vou rosnando, sorrindo e ladrando, por vezes, mas enquanto assim for, é bom sinal. Se eu parar de sorrir no meio do rosnar e ladrar, aí sim, a coisa está preta!

Bjinho.
Vera

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Chemo what?

Tenho andado desaparecida, mas continua tudo no bom caminho no que diz respeito ao cancro e à vida pós-cancro. Com o trabalho, as 500 atividades da criança, casa e cenas, os fins de semana rendem pouco e por vezes o cansaço impede que a escrita tome o seu devido lugar.

Pode não parecer, mas passaram 4 anos desde que regressei ao trabalho, desde que o tratamento “choque” terminou.  Olhando para trás, são já imensos textos acerca de mim, acerca do cancro, acerca deste desencontro que ninguém quer ter na sua vida.

Disse-me o meu querido oncologista, em janeiro de 2015, para eu viver a vida normalmente, não me lembrar do cancro constantemente...deixá-lo no ano 2014. A quimio limpou-me a memória e ainda hoje sinto efeitos secundários a esse nível, mas do cancro não me esqueço e acho que fazendo parte da minha vida, não o devo esquecer, devo é saber conviver com o que se passou, o que ainda se passa e o que pode vir a passar, a qualquer momento.



Este mês há revisão. Na próxima semana volto aos meus amigos marcadores e aos abraços sentidos do meu querido oncologista. Sinto-me bem entregue nas mãos dele, cuidada e lembrada. Poderá haver melhor sensação do que é esta quando se trata da nossa saúde?

Bjinho
Vera

Ps: Graças aos fóruns de apoio, com doentes e sobreviventes, familiares ou amigos, tenho conhecido pessoas espetaculares. É bonito, quando estamos dispostos a ouvir alguém e a ajudar, mesmo que nunca possas vir a conhecer a pessoa.