quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Rosnar e sorrir

Tenho andado cansada, demasiado abstraída para sentar e escrever, que tanta falta me faz. Aliado a isso, o meu "Airzinho" morreu há uns dias, daquelas mortes que não tem ressurreição possível.

Vá lá que foi nas mãos do Nuno...se fosse nas minhas, ainda hoje estava a ouvir as piadinhas. Sim, porque "eu" dou cabo das máquinas todas, cá em casa tem sido um "ver-se-te-avias" de cenas avariadas e, segundo consta, eu tenho quota parte nisso. Devo ter um dom...o que me vale é a minha capacidade de abstração (ou de ignorar mesmo).

A abstração e capacidade de ignorar, até um certo ponto, são muito importantes, porque existe tanta coisa, boa ou má, a acontecer à nossa volta, que nos consegue desestabilizar, retirar a paz e o equilíbrio que precisamos para viver, e não só sobreviver.

Vou rosnando, sorrindo e ladrando, por vezes, mas enquanto assim for, é bom sinal. Se eu parar de sorrir no meio do rosnar e ladrar, aí sim, a coisa está preta!

Bjinho.
Vera

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Chemo what?

Tenho andado desaparecida, mas continua tudo no bom caminho no que diz respeito ao cancro e à vida pós-cancro. Com o trabalho, as 500 atividades da criança, casa e cenas, os fins de semana rendem pouco e por vezes o cansaço impede que a escrita tome o seu devido lugar.

Pode não parecer, mas passaram 4 anos desde que regressei ao trabalho, desde que o tratamento “choque” terminou.  Olhando para trás, são já imensos textos acerca de mim, acerca do cancro, acerca deste desencontro que ninguém quer ter na sua vida.

Disse-me o meu querido oncologista, em janeiro de 2015, para eu viver a vida normalmente, não me lembrar do cancro constantemente...deixá-lo no ano 2014. A quimio limpou-me a memória e ainda hoje sinto efeitos secundários a esse nível, mas do cancro não me esqueço e acho que fazendo parte da minha vida, não o devo esquecer, devo é saber conviver com o que se passou, o que ainda se passa e o que pode vir a passar, a qualquer momento.



Este mês há revisão. Na próxima semana volto aos meus amigos marcadores e aos abraços sentidos do meu querido oncologista. Sinto-me bem entregue nas mãos dele, cuidada e lembrada. Poderá haver melhor sensação do que é esta quando se trata da nossa saúde?

Bjinho
Vera

Ps: Graças aos fóruns de apoio, com doentes e sobreviventes, familiares ou amigos, tenho conhecido pessoas espetaculares. É bonito, quando estamos dispostos a ouvir alguém e a ajudar, mesmo que nunca possas vir a conhecer a pessoa. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

38º aniversário

Daqui a umas horas, celebro o meu 38º aniversário.
É o 5º aniversário relatado neste blog.
São 4 anos pós tratamento.

Fazer anos é  motivo de grande alegria.
Fazer anos significa estar cá e poder festejá-los com a família e amigos.
Fazer anos é sinal de vida que passa, de tempo que se vai passando e nos vai dando a efémera sensação de termos controlo da nossa vida.

Fazer anos é manter o sorriso e a serenidade no olhar, a mesma que trazemos desde bebés.
Sejam felizes!


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Os meus CA’s


Os CA’s que me deram hoje alguma paz de espírito são os meus amigos CA 15.3 e CA 125. Não são mais do que marcadores tumorais, pequenos indicadores que nos podem tirar o sono ou ativar os sensores da teoria da relativização e nos deixarem de bem com a vida o resto do dia.

O CA 15.3 é monitorizado para detetar recidivas, mais do que propriamente para identificar novos tumores, mas é, de qualquer maneira, um parâmetro muito importante para sobreviventes oncológicos. Semestralmente, quando não o faço com mais assiduidade, faço análise ao marcador CA 15.3. É uma espécie de “checkpoint”…um marcador muito importante e que, apesar de sofrer variações, convém que sejam pequenas e graduais.

Já o CA 125 é feito de modo mais espaçado, no meu caso, e está associado ao cancro do ovário. Tendo o meu cancro se apresentado como hormono-dependente, é importante vigiar igualmente os ovários para evitar surpresas menos boas.

São análises simples de se fazer, apenas com sangue, e dão-nos a sensação, pelo menos, de estarmos sempre a controlar o processo, ou a vida, conforme lhe queiramos chamar. 

Às pessoas "normais", basta fazerem o exame de auto palpação...eu é que gosto de me armar em fina :P


 
Bjinho e Carpe Diem.

vera
 

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Números que alimentam...

Cada vez que saem artigos relativamente ao cancro de mama inflamatório, lá vou eu passar os olhitos para saber mais e conhecer o que se vai fazendo a nível de investigação, estatísticas e afins. Os números valem o que valem, e os contextos definem os números, mas a verdade é que a taxa de sobrevivência a este tipo de cancro tem vindo a aumentar e as estratégias combinadas de tratamento têm possibilitado uma maior taxa de sobrevivência e qualidade de vida.

Neste estudo em específico, os autores baseiam-se em dados de 14 hospitais do UK e fala-se já aqui em taxas de sobrevivência de 61%, o que é muito bom, tendo em conta a natureza deste bicho!

Alguns dados do estudo:
•IBC cases accounted for 0.4–1.8% of invasive breast cancer cases at these centres.
•Although 86.4% stage III patients received chemotherapy, surgery and radiotherapy, 40.1% developed distant metastases.
•Five-year overall survival (OS) was 61.0% for patients with stage III disease at presentation.


Estou no 4º ano pós-tratamento choque. Estou bem e quero continuar bem. Há esperança, sempre. Temos de nos agarrar a isso, para poder continuar a viver. 

Não consigo entrar em ondas de outubro rosa, mas continuo a divulgar e a falar no meu caso, porque somos poucas, mas somos únicas, como todas as mulheres o são.

No lump, still cancer.

Bjinho
vera

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

2 anos em obras

Há 2 anos atrás, neste mesmo dia - 6 de setembro,  comecei a estudar a reconstrução pós-mastectomia no caso do cancro inflamatório . Lembro-me de estar aqui sentada no sofá a ler artigos científicos, a sublinhar frases e a destacar números. Taxas de sucesso, de rejeição, número de cirurgias, efeitos secundários e maleitas que seriam inevitáveis, tempos de recuperação, etc, etc...

Com a mania chata que tenho de perceber o que me vão fazer, reuni toda a informação na minha cabecinha para a conversa com os 3 plásticos diferentes que consultei...Sim, 3 plásticos, porque os 2 primeiros indicaram-me soluções opostas. Tive de desempatar com um 3º, que acabou por se tornar o meu cirurgião.

Já passaram 2 anos...é impressionante. Depois de 3 cirurgias, muitas sessões de fisioterapia, muitas dores e incómodo, cortes e recortes, ainda sou uma obra inacabada, mas temos de deixar o corpo sarar e seguir o seu rumo. Na minha última visita ao Porto, com o objetivo de fazer a minha primeira tatuagem, não reuni as condições mínimas a nível de cicatrizes para avançar com essa fase, pelo que o tatuador me recomendou esperar mais uns tempos.

Foi giro entrar num espaço de tatuagens e quebrar preconceitos...ver caveiras, ossos, fotografias de pessoas todas tatuadas, imagens fora da minha realidade, mas encontrei também muita sinceridade, carinho e um toque humano, que me fez sentir que é ali que pertenço e é ali que devo estar para esta fase. Com este cancro, ganhei a noção que as pessoas fazem a diferença nestas andanças. Se confiarmos em quem nos acompanha, temos metade da jornada percorrida.

Daqui a uns tempos, queria ver se dava a obra por terminada. Já parece mais a obra de Santa Engrácia...


Bjinho,
Vera

domingo, 19 de agosto de 2018

Família de coração


Escrevi em agosto de 2014 o seguinte num dos meus “desabados do blog: “Hoje a vizinha Lia (6 anos) quis ver o meu "dói-dói". Diz-me ela depois, com uma naturalidade maravilhosa: "isso está mesmo feio!" Pois está Lia, tens razão. Mas vai ficar melhor, muito melhor, e teremos muitos anos pela frente para os nossos picnics e convívio!”

Vamos arranjando sempre o que fazer, vamos inventando desculpas para não estarmos com as pessoas que não sendo família de sangue, são família de coração. Sabemos que podemos contar com as pessoas, que estão sempre aqui ao lado e isso às vezes ainda é pior, porque facilitamos demais e desleixamos o convívio. Achamos que há sempre o amanhã e o depois.

Ontem foi dia de passeio e picnic com a Lia e respetiva famelga. Fomos à zona de Pedrogão Grande, descobrir as fantásticas praias fluviais que existem por ali. O fogo levou muita coisa, mas ainda há muita coisa para se ver e fazer ali. 

Um dia simples, de picnic e mantinha no chão, de águas limpas e de amizades boas, com jogos e diversão. Terminamos o dia a jantar nos bombeiros de Pedrogão. Se forem para esses lados, vão lá jantar. Levem boa companhia, fazem os nossos dias muito melhores.  



Bjinho,
vera