sexta-feira, 3 de julho de 2026

Renovação de passe

Quase 1 ano depois, hoje lembrei-me de escrever. Sem obrigação, só mesmo por vontade.

Hoje foi dia de consulta de oncologia. A cada 6 meses, tenho de ir fazer a renovação do "passe" ao meu querido oncologista. Apesar de ficar sempre com um nervoso miudinho e insónias nesta semana,  já não estranho exames, picadas e veste e despe...vamo-nos habituando a uma rotina que nos é imposta e que, no fundo, nos sabe bem seguir.

Há quem não valorize rotinas. Eu valorizo e gosto. Significam que nada me tirou dela! 

Tudo normal nos exames já feitos, mais quisto, menos quisto. Tenho de fazer mais um exame entretanto, mais por descargo de consciência e porque havendo antecedentes, há exames que a regra manda antecipar. E o meu querido oncologista, do alto da sua idade, já viu muita coisa estranha...portanto há que cuidar, antecipar e vigiar.

A vida tem seguido o seu ritmo, mais acelerado nos últimos tempos, mas com objetivo de equilíbrio a médio e longo prazo. Há alturas em que não se aceitam desafios e nos últimos anos sempre achei que a rotina profissional era de manter. Miúda pequena, corpo a recuperar, construção de casa, etc.! 

Aceitei um novo desafio em maio e aceitei sair da minha rotina por algum tempo. Reconheço e aceito o "algum tempo".  No fundo, aceitar um convite para um projeto limitado no tempo é saber aceitar a efemeridade. E isso, o cancro ensinou-me muito bem. 

De igual modo, ensinou-me a relativizar. Ensinou-me a ligar o "descomplicómetro". Ensinou-me que é preciso saber ignorar certas coisas para ser feliz e estar em paz. É preciso entender que não preciso de ser a melhor, apenas dar o meu melhor. Exatamente o que digo à Rita no basquetebol. 

Apesar de tudo, tenho a sensação que não tenho conseguido aplicar estes ensinamentos tão bem quanto gostaria. Talvez tenha de passar mais tempo na horta a falar com os legumes e a observar o pomar.  Interagem todas as espécies de legumes, árvores, flores e ervas daninhas...um ecossistema tão completo, tão alinhado e tão diferente.

É tão simples e descomplicada a horta!

Já só me faltam uns 25 anos para me poder dedicar à horta e ao pomar.
Estou quase lá e conto ter vários "passes" renovados até lá.

beijo,

vera

Ps. Sr. Miguel, meu sobrinho, a tua tia/madrinha afinal está velha e lamechas:) 
Vou atualizar a foto do site! 

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Dia dos amigos

São cada vez menos à medida que a idade aumenta, mas cada vez mais nossos amigos.

Dos que pertencem ao círculo.
Dos que se preocupam connosco.
Dos que estão a nosso lado sem interesse.
Dos que gostam de nós a sério.
Dos que nos reconhecem os defeitos e mesmo assim permanecem.
Dos que não fogem perante uma doença.
Dos que não nos usam para atingir objetivos pessoais.
Dos que encontramos passado 10 ou 20 anos e é como se tivesse sido ontem o último jantar juntos.
Dos que nos puxam para sermos melhores pessoas.

Começam a ser poucos.
Mas o cancro também ensina que não precisam de ser muitos.

Só têm de ser e estar neste jogo de equilíbrios.

 Nenhuma descrição de foto disponível.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Soneca, costura e steri-strips

 Há 8 dias atrás, estava eu na azáfama de pré-cirurgia. Documentos e exames médicos, organizar o dia em que ia estar fora, transportes e dormida da Rita em casa da amiga, porque a entrada no Hospital da Arrábida era cedo. Por mais experiência que se tenha, há ali sempre um nervoso miudinho que se instala no dia anterior e que se tenta camuflar com as verborreias do costume..."é só mais um corte"!

Pois então, mais uma ida ao bloco porquê?
Segundo o Nuno, eu gosto e tinha saudades do bloco. Sadomasoquismo, segundo ele. 

Só que não...não é gosto pelo bloco, mas também não se pode dizer que me cause estranheza nem qualquer sentimento de aversão. É o que é, é o que tem de ser.

Uma espécie de quisto que se formou na última cirurgia de reconstrução e que se manteve aqui, mais ou menos, sossegadito até novembro passado. Mas quando infeta e cresce e cria calor no peito, a sensação é algo estranha e de desassossegar até as almas mais sossegadas.  Especialmente as almas que tiveram cancro inflamatório da mama e cujos sintomas envolvem calor, inflamação e alguma dor. 

Uma ida ao oncologista sossegou os ânimos na altura, uma ecografia mostrou tecidos nada suspeitos...antibiótico, anti-inflamatórios e bota para casa. Só que voltou a manifestar-se pouco depois novamente e ultimamente lembrava-me da sua existência de forma pouco simpática. 

Gosto pouco que me incomodem e não o convidei a instalar-se. Portanto, mais um corte, mais uma cicatriz em cima da outra e mais uns dias a dormir sem posição e a ganhar calo num certo sítio. Lembrava-me um destes dias que dormi mais de 3 meses de barriga para cima, semi-sentada, quando fiz a  primeira grande cirurgia. Portanto, há que aguentar agora uns dias.

O dito cujo foi para análise, como todos os tecidos que são retirados e em breve vou saber que o "nódulo de citoesteatonecrose" não passava disso mesmo...uma cena com nome feio no meu peito. 

E, com isto, voltei a descobrir que com cicatrizes frescas se devem evitar a tosse, os movimentos bruscos ou a vontade de ser independente e de fazer tudo sozinha. Pior do que tudo, é mesmo tentar controlar os meus "espirros silenciosos" e toda a turbulência que causam nos meus steri-strips!
O Olaf entende-me bem!


Para quem está na luta, coragem e boa disposição.
O cancro não gosta de hormonas felizes. 

Beijinho

vera

 Ps. Para o meu sobrinho M., 2 entradas no blog e ainda só estamos em março! Este ano promete!!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Dia da Luta, os 44 e o fim do rosinha!

Já passou mais de 1 ano desde a última entrada no blog. Ainda um destes dias dizia à Rita que o facto de escrever durante o cancro tinha ajudado a manter a sanidade mental durante o annus horribilis. Na verdade, tem ajudado ao longo dos anos e, de vez em quando, volto cá para reler certas entradas e pensar... "f******, se aguentaste isto, não há-de ser este ou aquilo que te deita abaixo!"

Hoje, no Dia Mundial da Luta contra o Cancro fui à consulta semestral de oncologia, ver o meu querido Dr. Leal. Há 11 anos a ser recebida pelo carinho constante e cuidado deste médico que se tornou, para muita gente conhecida, um amigo. Encontrei hoje 2 pessoas conhecidas lá...é um lugar comum, cada vez mais um lugar comum e estranhamente, continua a ser casa.

Marcamos hoje o fim de uma relação de alguns anos...eu e o tamoxifeno estávamos juntos desde 2019 e cortamos hoje laços.  Fiz hormonoterapia desde 2014 e tenho sentido no corpo os seus efeitos.

Vendo frescura, é claro, mas daquela frescura que faz estalar os ossos e articulações...que causou osteopenia e mais uma série de efeitos secundários "fófinhos".  Segundo os especialistas cá de casa, o mais sentido foram as alterações de humor...calúnias, na prática.


Deixar a medicação é uma sensação mista...uma espécie de agridoce achinesado.
Sabemos que o comprimido rosa contribuiu para reduzir taxas de recidiva, aumentou a sobrevida de mulheres sobreviventes de cancro de mama e contribuiu para que a esperança ganhasse lugar em muitas casas. É uma esperança rosa, pequenina.

Por um lado, quero parar de tomar medicação, mas por outro lado, há ali uma sensação de proteção que parece que se desvanece.Uns dias de habituação e a vida segue o seu rumo. Dizem  que as hormonas positivas também protegem. 

Pois bem, com 44 anos feitos, eis que posso colocar uma data de fim no tratamento previsto em janeiro de 2014, há muitos anos atrás e que me pareceram um futuro muito distante e, às vezes, impossível.

É possível percorrer a jornada. Uns dias melhores, outros piores, porque nem tudo é rosinha, como o tamoxifeno. Importa continuar.

A quem começa, eis o meu percurso. Registem tudo. Somos o nosso melhor médico e temos de saber tudo o que diz respeito à nossa saúde.

1- Quimioterapia neoadjuvante - início a 8-01-2014, com 4 ciclos de AC + 12 de Herceptin e Paclitaxel
2- Cirurgia -  Mastectomia radical modificada a 17-06-2014
3- Radioterapia - Início a 14-07-2014, 26 sessões, sendo 10 com bólus
4- Herceptin - de 3 em 3 semanas, de  05-04-2014 a 31-03-2015
5 - Tamoxifeno - interrompido numa primeira relação, de 01-07-2014 a 7-10-2014
6- Zoladex - 1 mensal, durante 5 anos, de 8-08-2014 a 24-08-2019
7. Aromasin - diário, de 8-10-2014 a 30-09-2019
8. Tamoxifeno - retoma da relação a 01-10-2019 e fim a 04-02-2025


Abraço,

Vera


terça-feira, 28 de novembro de 2023

43

Na semana passada celebrei 43 anos de vida, desta feita com outras situações de vida familiar a mostrar-nos que o nosso maior bem é mesmo a saúde. Ainda há pessoas que não o entendem, mas lá chegarão. Com os seus altos e baixos, a vida tem me mostrado que i) somos pouco "donos disto tudo" , ii) nada acontece por acaso e iii) o que hoje é certo, amanhã pode não ser. Coisas práticas, na verdade.

Desde há 10 anos, desde o diagnóstico e desde esse annus horribilis, que tenho tentado ser mais prática e mais desligada de certas coisas. Se resulta sempre, a 100%, não, não resulta. Se ajuda em muitas situações do dia-a-dia, lá isso ajuda. O sentido prático também tem impacto no dia-a-dia e no círculo de amigos que temos. Algumas pessoas entram, outras saem da nossa vida. A umas até deixamos entrar no círculo, a outras barramos o acesso. Podemos até ser rotulados de antipáticos ou snobs. No fundo, acho que é só proteção da sanidade mental.

Não sei se já é da idade, mas confesso que perdi um bocado a paciência para certas pessoas, especialmente as que querem ser importantes à custa de tudo e de todos ou as que deliberadamente prejudicam outras, adultas ou crianças, só para seu belo prazer. Anda para aí uma falta de valores morais que até custa ver! Não lhes desejo mal, só distância, quando possível (ou como diria uma amiga nossa, um pessegueiro a nascer num certo sítio do corpo)!

O dia teve os seus momentos bonitos, como todos. Acordar cedo, levar a Rita à escola, cortar o cabelo com a minha Joaninha e um almoço a 3 com charmoso e filhota. 

No final do dia, os parabéns com família e um ramo de flores lindíssimo de uma guerreira com caracóis espampanantes!  Obrigada M. pelo carinho. Sabes que não é preciso nada e estarei sempre aqui. Estás no círculo.

 
Um muito obrigada a quem ligou, a quem mandou sms, a quem enviou mensagem pelas redes sociais.

Por muitos mais anos convosco, com saúde para todos.

Beijinho

Ps. Em relação ao cancro, aquele que motivou a criação deste blog, estou a entrar no 10º ano pós-diagnóstico, ainda em hormonoterapia, com ossos a dar sinais que já estão fartos do comprimido rosa, mas até aos 99 vão ter de suportar este corpito :)

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Tempo que passa

A última entrada no blog é de fevereiro 2022 e muitas foram as vezes em que me lembrei de escrever no blog e vai passando. Não é que não faça falta, porque faz. É porque o tempo passa, a construção da casa exigiu mais de nós do que esperaríamos, a Rita e sua agenda são prioritárias...a vida, na prática e simplicidade do dia a dia, é prioritária.

Tenho sempre tentado ajudar, como posso, por outras vias. Basta ouvir, basta trocar umas mensagens e mostrar a quem está na luta que estamos cá uns para os outros. Que é preciso arrebitar e olhar em frente, Que o cancro não gosta de pessoas felizes. Que o cancro não gosta de abraços, como um dia escrevi a uma menina que me queria dar um abraço quando soube do meu diagnóstico.

 Hoje, pelos EUA, a Terry relembra a história da Lori e de como tudo começou nesta luta que é a de divulgar o cancro inflamatório da mama.

Importa saber, conhecer e identificar atempadamente, seja neste ou noutro tipo de cancro.

Because of her...
https://theibcnetwork.org/because-of-her/

 


 

P.S. Continuo com o tamoxifeno...a entrar no 10º ano de tratamento. Eu e o comprimido rosa temo-nos dado bem, apesar dos efeitos nos ossos e afins.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Ensinamentos

Deixei passar a meia noite e estava a pensar no dia mundial do cancro. É um dia em que me faz pensar na sorte que tenho por estar viva, por ter respondido ao tratamento, por ter conseguido encarar a mastectomia como um passo para estar viva, por ter tido sempre amigos e família por perto, por estar a ver a Rita a crescer (socorro nesta parte).

Sei que no meio de tudo o que aconteceu, no meio da gravidade da situação e da incerteza que ia crescendo, o cancro também me ensinou algumas coisas. 

Ensinou-me a desprender, ensinou-me a distinguir e a selecionar as lutas que quero travar. Ensinou-me a ser resiliente, mas também a refilar mais e a expressar a minha opinião. 

 Ainda hoje comentava com duas colegas que refilo e bufo de vez em quando. Deixei de conseguir engolir sapos ou comer catos. E quando não quero sequer refilar, afasto-me...que melhor do que termos a firmeza de saber ignorar e avançar quando sabemos o que é importante e temos as nossas fronteiras bem definidas.

O cancro tirou-me muito aos 33 anos, mas também ensinou. E não só a mim, a todos à minha volta que foram afetados também.

Cuidem da vossa saúde, alimentem-se bem e façam sempre exames de vigilância. Este foi um legado do cancro...chatear a malta! 

Beijinho & Keep it Simple!

Vera

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Tensão q.b.

Uma ida ao cirurgião plástico é um momento de tensão.

Tensão q.b., entenda-se,  porque as preocupações não são estéticas no meu caso. Há uns quilos a mais, estupidamente concentrados em alguns sítios, mas convivo bem com eles. Esta tensão vai depois desvanecendo ao longo do dia e chega-se ao fim do dia com a sensação de ter ido ao Porto a pé.

Passados 3 anos voltei ao sítio onde senti mais dores na vida...e voltei com um sorriso nas trombas. É preciso ser parva e esquecer que houve momentos em que me apetecia bater em alguém!

Com o covid, fui adiando a consulta de seguimento, mas devemos começar o ano a limpar assuntos pendentes e esse era um deles.

Uns quistos derivados do "lipofilling" precisavam do olhar clínico. Assim que o tiveram, ficaram felizes por saber que não os vamos incomodar nem com aspirações nem com cirurgias. É mesmo para deixar o organismo tratar disso, com o tempo que precisam, com a calma que exigem e com a descontração de quem já olha para os quistos com ar de "Achas que me incomodas depois de tudo o que já vivemos?"

Keep it simple!

Beijinho.





quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Obrigada!

Tenho muito pelo que agradecer. 

Tenho muito a quem agradecer. 

Obrigada pelas dezenas de mensagens e manifestações de carinho por mais um aniversário! 

Agradeço de coração. Fazer anos não é mais do que completar  um ciclo, continuar a vencer as contrariedades, admitir as derrotas, saborear as vitórias e seguir em frente. A perspetiva é simples, como tudo devia ser. Simples como os cabelos brancos que vão surgindo!

O ano passou a correr. Uma entrada apenas no blog, num ano em que o COVID nos continuou a condicionar os movimentos e a escrita, pelos vistos. Tem sido um ano rico em leituras, em obras e na horta.

Escrever menos no blog significa igualmente um maior distanciamento do cancro, aquela coragem ousada de quem diz "já passou" ou "está quase", ainda que persista alguma dor e ainda me arrepie de cima a baixo sempre que o cheiro dos restaurantes H3 me chega ao nariz (nunca comam hambúrguer depois de quimioterapia).  Exames semestrais têm mantido o foco no futuro, o foco na esperança e na vontade de fazer os 80 anos, pelo menos. 

Ainda hoje comentava no café, com duas moças simpáticas, que as perspetivas de vida mudam após certas coisas na nossa vida. Não é só conversa. São as prioridades que se redefinem quando a linha fica torta debaixo dos pés.

Gostava que algumas pessoas conseguissem mudar perspetiva sem ter de sentir o tapete a fugir debaixo dos pés...talvez assim conseguíssemos ser mais amigos, mais tolerantes, mais solidários...na prática, mais pessoas!

Um abraço, cuidem-se e sempre alerta a sintomas. Prevenir não custa e remediar sai-nos sempre mais caro em todos os sentidos.

vera



quarta-feira, 7 de julho de 2021

Dias e meses...

Já me é difícil calcular mentalmente o número de dias em que estive ausente do blog. Não posso culpar a quimioterapia, porque muita gente não entende o conceito do chemo brain e olha para mim com aquele ar de condescendência, como quem diz "Olha a parva. Já terminou a quimio há 6 anos e ainda usa isso como desculpa!".

Usemos, pois, os meses....muito mais fáceis de contar. Desde outubro ausente da blogoesfera. Confinamentos, nova mudança de casa, malas, caixas, trabalho, projetos e projetinhos...alguma coisa tem de ficar para trás, e por norma sou eu...o exercício físico....os livros...e o blog, entre tantas outras coisas.

Aprendi a olhar para o que se não se pode fazer como pacífico e aceitável. Aprendi que o que não tem remédio, remediado está e assim não sofro (tanto) por não fazer tudo o que gostava de fazer. Aprendi que se deve valorizar os pequenos momentos no sofá, o andar sozinha na horta com a  companhia das abelhas (e toupeiras), o ficar sentada no carro com um livro enquanto a criança treina.

Coisas pequenas, claro. Coisas que podem parecer parvas a muita gente. Coisas que para muitos são luxos...mas daqueles luxos que todos podemos ter se assim o quisermos e se assim orientarmos a nossa vida.

Cada vez mais sinto que o maior luxo é mesmo termos saúde, ignorando o cliché. Hoje foi dia de exames de rotina, com a sempre simpática Dra. Isonda. Para a semana, há consulta de oncologia, por isso convém ver se este belo organismo está em bom estado para a revisão com o Dr. Leal. Estar no vestiário antes de exames é um alerta para tudo o que de bom há cá fora.  O cancro tirou-me a "leviandade" com que se fazia os exames médicos antes dele surgir na minha vida e duvido que me devolva essa sensação algum dia. 

Hoje também era o Research Summit na universidade e eu tive de andar em jejum até às 11 e tal...o que vale é que as máscaras disfarçam o mau humor e o meu ar esfomeado. Tive de dividir a ansiedade pelos exames e pelo evento...e achar o ponto de equilíbrio. 

Deixo-vos a imagem de um quadro que comprei recentemente e que traduz o estado de espírito desta jovem quarentona.


Beijinhos e façam exames de prevenção.
Não custa nada prevenir. Custa bem mais depois.

Vera 






terça-feira, 6 de outubro de 2020

O bendito outubro rosa.

Chegou o outubro rosa. 

Toda a gente pode falar de mamas, postar laços cor de rosa e fotos de mamas por todo o lado e não há condenação social. 

Nunca vi o outubro como rosa, nem gosto particularmente que se comemorem coisas que deviam estar enraizadas na nossa mente e nos nossos hábitos. Prevenir durante os 12 meses. O outubro é só rosa, nada mais.

Não há preferências, não há maneira de nos excluirmos da prevenção, só porque não temos ninguém na família com cancro. É uma ilusão tão grande, mas ainda paira na cabeça de muita gente. Depois chega o susto, porque achamos que só acontece aos outros.

Devemos ter medo q.b., mas aquele medo que nos faz ter atenção com os sinais, que nos faz ouvir o nosso corpo e nos faz seguir os protocolos de exames de rotina. Não o medo da vida...seja ela rosa, amarela ou às pintinhas.


Em 2014, peguei num texto que enumerava os fatores de risco para ter cancro de mama e analisei à luz da minha experiência. Já lá vão alguns anos, felizmente, mas copio abaixo o texto. Vale a pena recordar tanta coisa que não encaixava no "perfil".

Enjoy it :)

Vera

"Analisando os fatores e a minha situação em concreto:

  • Idade: a possibilidade de ter cancro da mama aumenta com o aumento da idade.
    Eu tinha 33 no momento de diagnóstico.

  • História pessoal de cancro da mama: uma mulher que já tenha tido cancro da mama (numa mama), tem maior risco de ter a doença na outra mama.
    Nops...

  • História familiar: o risco de uma mulher ter cancro da mama está aumentado se houver história familiar de cancro da mama.
    Apenas uma tia do meu pai teve e já não era jovem. Ainda cá está para contar a história dela.

  • Algumas alterações da mama: algumas mulheres apresentam células mamárias que parecem anormais.
    Fazia ecografias mamárias de 6 em 6 meses. Sempre tudo normal.
     
  • Alterações genéticas: alterações em certos genes (BRCA1, BRCA2, entre outros) aumentam o risco de cancro da mama.
    Fiz esta análise já durante o tratamento e deu negativo felizmente.

  • Primeira gravidez depois dos 31 anos.
    Nops...antes dos 30 e amamentei a Rita durante +- 1 ano.

  • História menstrual: mulheres que tiveram a primeira menstruação em idade precoce (antes dos 12 anos de idade), ou uma menopausa tardia (após os 55 anos) ou que nunca tiveram filhos.
    Fui normal neste aspeto, pelo menos na parte da primeira menstruação. A menopausa não deve ser tardia :(

  • Terapêutica hormonal de substituição: mulheres que tomam terapêutica hormonal para a menopausa, durante 5 ou mais anos após a menopausa.
    Ainda não lá tinha chegado, mas agora já faço hormonoterapia.

  • Raça: o cancro da mama ocorre com maior frequência em mulheres Caucasianas (brancas), comparativamente a mulheres Latinas, Asiáticas ou Afro-Americanas.
    Yep...I'm white.

  • Radioterapia na região peitoral: mulheres que tenham feito radioterapia na região peitoral, incluindo as mamas, antes dos 30 anos, apresentam um risco aumentado para cancro da mama.
    Fiz agora, mas para combater o bicho.

  • Densidade da mama: mulheres com idade mais avançada que apresentam, essencialmente, tecido denso (não gordo) numa mamografia (raio-X da mama), têm risco aumentado para cancro da mama.
    Sempre tive o tecido mamário muito denso, daí as ecografias periódicas que o meu ginecologista sempre me aconselhou.

  • Obesidade depois da menopausa: mulheres obesas, após a menopausa, apresentam um risco aumentado de desenvolver cancro da mama.
    Mais uma vez, ainda não tinha chegado lá, nem me deram a oportunidade de engordar :)

  • Inactividade física: mulheres que são fisicamente inactivas, durante a sua vida, parecem ter um risco aumentado para cancro da mama; estar fisicamente activa pode ajudar a diminuir este risco, através da prevenção do aumento de peso e da obesidade.
    É estúpido, mas eu e o meu charmoso tínhamos entrado para o ginásio poucos meses antes do diagnóstico. Não considero, no entanto, que estivesse fisicamente inativa, até porque com uma pestinha de 3 anos, seria difícil ser inativa cá em casa!

  • Bebidas alcoólicas: alguns estudos sugerem haver relação entre a maior ingestão de bebidas alcoólicas e o risco aumentado de ter cancro da mama.
    A minha boa disposição (quase sempre) não depende do álcool. Beber um copo de vinho ou uma cerveja de vez em quando chega-me. "

domingo, 22 de março de 2020

Ficar em casa!

Hoje é dia 22.

Na prática, não saio de casa desde dia 13 e, felizmente, já estava em tele-trabalho em casa desde dia 11.

Nestas circunstâncias, é preciso saber estar em casa, o que muitas vezes não é fácil, especialmente quando fizemos downsizing na casa e não temos espaço para co-habitar sem ameaçarmos alguém de porrada ou tropeçar em alguma coisa.

Tive um ano de aprendizagem nesta matéria em 2014. Com o cancro e respetivos tratamentos fofinhos, vi-me muitos dias fechada em casa e aprendi a lidar com os silêncios da casa, nesta caso na minha antiga casa. Ai as saudades da Vista Alegre e da minha horta :(

Sempre gostei de estar com pessoas e ver-me rodeada de amigos. No entanto, durante a quimioterapia, aprendi o quão satisfatório pode ser o silêncio e a solidão. Houve dias em que tive companhia, e da boa, mas muitos em que tive de aprender a viver dentro das paredes da casa e a saber respeitar esses limites.

Era-me dito para me resguardar de pessoas além do necessário, contacto só com a família mais próxima...qualquer constipação ou gripezinha num sistema imunitário debilitado podia dar azo a problemas. Ir ao supermercado só se me sentisse bem fisicamente e nas horas de menos gente...ir de máscara era aconselhável.

Confesso que andava com elas no carro e quando saía, pensava que se entrasse de máscara, ia ser alvo de olhares ainda mais piedosos do que aqueles que a careca e o olhar amarelecido me conferiam.

Entrava, procurava o que queria e saía a correr, quase sem tocar em nada, a fugir das pessoas nos corredores e meia paranóica com o contacto físico.  Neste momento, vejo tanta gente na televisão assim, de máscara na rua, nos transportes e nos locais de trabalho que ninguém daria pela minha máscara nem pela figurinha que devo ter feito algumas vezes.

Estar em casa por vontade própria é fácil, estar por necessidade e/ ou obrigação força-nos a outro mindset. Temos de interiorizar que este é um período da nossa vida que somos obrigados a viver, uma fase que vai passar e que novos dias virão, com a liberdade para ir à praia, dar um volta de bicicleta ou só estar com amigos num final de tarde.

Entretanto, vamos fazendo dentro das nossas paredes tudo o que nos é permitido, porque umas vezes é o cancro, outras vezes a depressão, agora o corona....há imensas coisas que nos podem prender a uma casa. É preciso esperar com calma, paciência e respeito pelo próximo.



Beijinho e fiquem em casa.

vera


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

52 Gy

Quando somos diagnosticados com um cancro raro (em que há pouca informação) e somos curiosos, andamos sempre nisto...pode até nem parecer saudável aos olhos de muita gente, mas é vida! Cada um gere as suas ansiedades e expetativas como bem entende.


O caráter raro dificulta o investimento em investigação acerca do cancro inflamatório da mama, mas vai havendo alguma, especialmente nos EUA e há alguns artigos que vão positivamente contrariando as estatísticas e os prognósticos reservados que são associados a este bichinho.

Saiu recentemente mais um artigo acerca da radioterapia pós-mastectomia no tratamento deste tipo de cancro (ver aqui). Felizmente, após o começo conturbado no primeiro hospital, tive a benção de cair nas mãos de um super-médico, que estava a par das recomendações  mais recentes para o tratar.

Hoje ao preparar o meu super dossier médico para uma junta médica, deparei-me com as notas e o relatório final da radioterapia. As minhas 26 sessões de radioterapia diária foram intensas, mas vividas com a calma possível, aquela que está intimamente ligada com o "tem de ser".

52 Gy (gray), em frações de 2 Gy, 5 vezes por semana, 26 dias. Segundo o relatório, eu apresentava um "eritema acentuado na parede torácica" no fim das sessões. Segundo a minha memória, era churrasco mesmo e nada agradável, mas nestas lutas, servem todas as armas e algumas são insubstituíveis.


Bjinho,
vera

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Dores de gente normal

Hoje ao mostrar o blog a uma pessoa, deparei-me com uma ausência prolongada....17 de dezembro foi o último post. E já aconteceu tanta coisa desde então :)

Andei distraída com umas dores de costas que conseguiram colocar a imaginação em altos voos. Uma pessoa normal ponderaria uma queda, mau jeito no desporto, efeito da idade, postura incorreta...está-se mesmo a ver?

Metástases ósseas...claro. No que mais haveria de pensar um sobrevivente oncológico?

É quase como se não tivéssemos direito a dores simples, dores de gente normal. Depois de alguns dias a evitar pensar nas dores, outros tantos a pensar que as inflamações demoram alguns dias a passar, outros em Madrid a tomar anti-inflamatórios na corrida pelos museus, eis que na consulta com o oncologista me queixo e ele, como sempre, ouviu, refletiu e opinou.

Não devendo descurar este tipo de dores minimamente constantes, há que investigar a causa, ou pelo menos, eliminar causas de dor.  Pensamento de oncologista = despistar metástases ósseas. É caso para dizer que o nosso pensamento não anda muito desencontrado.

Fiz uma cintilografia óssea de corpo inteiro na semana passada...aparentemente, no meu belo esqueleto nada indicia "malignidades" e o radiofármaco que me injetaram não foi atraído por nenhumas células, pelo que agora pode ser o que quiser....inflamação, postura, idade....whatever, desde que não seja cancro.


Uma consulta de osteopatia entretanto parece ter ajudado e, mais uma vez, acredito que aliar medicinas/ terapêuticas alternativas com as convencionais só nos trará vantagens. Se alguém me vir mal sentada, inclinada para algum dos lados....relembre-me por favor que fazer uma cintilografia é bem menos agradável do que sentar-se corretamente!!

Beijinhos,
Vera

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Dias em que não há paciência

Há dias em que a paciência é limitada, como por exemplo naqueles dias em que vais tirar sangue pela manhã e ficas todo o dia à espera que chegue o e-mail com os resultados.

Semana de revisão na oncologia dá sempre azo a uma certa impaciência e intolerância para com certas coisas e certas pessoas.

Como diz o outro, as pessoas boas não são necessariamente burras. Podem ser só boas, adequada e simplesmente boas.

Bjinho
Vera

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Números que gelam

Estatísticas...valem o que valem, mas conseguem gelar-nos uns momentos.

O medo vai sempre acompanhar-nos, saber lidar com o medo é que nos faz continuar a sorrir, a sair da cama, a trabalhar, a viver! Ter noção destas amargas estatísticas ajuda:)

Vejam a reportagem breve da Sic  - "Um terco dos doentes com cancro da mama acaba por voltar a ter a doenca na forma avançada"

Bjinho,
Vera


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Tamoxifeno

Há 5 anos terminamos a nossa relação. Eu e o tamoxifeno éramos incompatíveis...
Como era "nova"na altura, o Aromasin pareceu-nos mais atraente, ainda por cima acompanhado do Zoladex, com aquele corpo invejável de chorar por mais (lá doer, doeu muitas vezes).

Retomo hoje este velho amor, abandonada que está a fase do Aromasin e Zoladex, que foram sempre fiéis protetores. Desempenharam bem o seu papel, mas é altura de avançar.

Bring it on, tamoxifen. Venham daí mais mudanças de humor, mais dores nas articulações, mais 500 efeitos secundários.

Afinal de contas, alguém disse que não há amor como o primeiro...
Bjinho e sejam felizes.

Vera

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Outubro rosa

Parece que começou o mês da sensibilização para o cancro da mama. Ideologias à parte, convém mesmo é vigiar e cuidar do nosso corpo todos os dias. Homens e mulheres devem fazer a auto-palpação. Pode salvar vidas, literalmente.
Bjinhos
Vera

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Besta de cancro

Hoje uma sms fez-me recuar a 2013 quando descobri que tinha cancro...

Nunca fui de eufemismos. É cancro...não é o malzinho, a doença, o tumor maligno...chamem-no pelo nome. Consta que ele não gosta de afrontas...

Quando nos conseguimos colocar no lugar da pessoa que acabou de receber esse "presente", caímos de volta no mesmo momento, sentimos o aperto e a sensação de medo e do "porquê eu"...e milésimos de segundos depois, estamos a passar energia positiva, a cuidar de dar esperança e a disponibilizar-nos para ouvir, falar ou o que quer que precisem.

Não vale a pena procurar o porquê. Há quem diga que é o destino, o karma, o azar, a genética, entre outros pseudo-culpados.  Importa agora somente o quando e como o vamos atacar, para o ultrapassar. O resto fará parte da história, da nossa história

Bjinho
vera

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Aprender sempre

Hoje fui à biblioteca de Ílhavo com a Rita. O clube de leitura está quase a recomeçar e há que preparar a tarefa com antecedência para evitar aquelas correrias de última hora.

Vi estes dois livros. Um de receitas e outro de controlo hormonal...equilíbrio do sistema hormonal...uhm, pareciam combinar. Tudo o que comemos influencia o nosso corpo, por isso continuo a tentar mudar hábitos cá em casa, de preferência de forma informada.

Boas leituras e muita saúde.
Bjinhos